Mónica Sánchez: a empresária que nunca viveu a guerra e hoje incentiva a paz

Liza Torres Salazar.

Pereira (Colômbia), 2 out (EFE).- Quando Mónica Sánchez, gerente-geral da empresa colombiana Uniformar, contratou Luis, um ex-guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), nunca pensou que com essa decisão conseguiria entender a Colômbia que sofreu uma longa guerra que "por sorte" ela não viveu.

"Eu não queria receber ou ver um reintegrado", contou Mónica à Agência Efe, que reconheceu que, por medo, foi inevitável fechar as portas de sua empresa para essas pessoas.

Mónica, de 46 anos, pertence a um dos setores da sociedade que, mesmo vivendo no mesmo país, jamais sentiu as consequências diretas de mais de meio século de conflito armado.

"Era muito confortável. Vivia em uma cidade onde a violência nunca me atingiu. Jamais vi um fuzil na vida e por isso tinha medo que Luis fosse violento, mas foi o contrário. Me deparei com um homem que sentia um profundo medo de ser rejeitado", relatou a empresária nascida em Pereira, uma tranquila cidade do Eixo Cafeeiro no centro do país.

Foi nesse momento, em que ela começou a entender a nova realidade que Luis, o reintegrado de 22 anos, enfrentava.

Ele é um dos quase 14 mil desmobilizados de grupos guerrilheiros e paramilitares que desde 2003 concluíram o processo de reintegração que envolve benefícios educativos, acompanhamento psicossocial, acesso à saúde, capacitação profissional e encaminhamento a empresas do país, de acordo com a Agência Colombiana para a Reintegração (ACR), vinculada ao governo.

"Ele foi contratado em 2008 para a função de mensageiro e através do seu trabalho conheci quem ele realmente era, como pensava, o que sentia, e foi uma bênção para nossa empresa. Foi uma das melhores decisões que tomei", acrescentou Mónica.

Desde 2008, a Uniformar deu emprego direto a quatro desmobilizados das Farc e cinco vítimas de deslocamento forçado no país. A empresa, com sede em Pereira e que Mónica comanda com sua sócia Liliana Ospina, desenha, produz e vende uniformes empresariais e industriais.

"Tenho que ser honesta. No início, foi difícil a integração porque ele era muito tímido, muito sensível ao que as pessoas falavam", explicou Mónica.

Segundo ela, nos primeiros dias de trabalho, os ex-guerrilheiros tinham medo "dos preconceitos" que poderiam sofrer e essa percepção é confirmada pela coordenadora de reintegração da ACR, Lina Serna.

"Eles mesmos dizem que as pessoas imaginam que eles são monstros, que têm o coração ruim", disse Lina.

Ao todo, 90% dos desmobilizados que participam do processo de reintegração à vida civil chegam com algum tipo de problema psicossocial, de acordo com Lina.

"O fato de pertencer a um grupo armado fazia com que muitos deles se sentissem com poder. Agora, chegam a um mundo onde são eles os intimidados, porque em algumas ocasiões não sabem como as coisas funcionam", esclareceu a coordenadora.

E essa dificuldade de se recolocar na sociedade a empresária viu com os próprios olhos quando organizou uma sessão de cinema, depois de descobrir que Luiz nunca tinha assistido a um filme.

"Ele pulava de felicidade na cadeira. Naquele momento, entendi que deve ser a outra Colômbia que tem que tentar entender a guerra para começar a construir a paz", defendeu.

O acordo de paz assinado no último dia 26 de setembro em Cartagena das Índias entre o governo colombiano e as Farc abre o caminho para que cerca de seis mil guerrilheiros abandonem as armas e se reintegrem à vida civil, uma vez que resolvam sua situação na Justiça.

"A nossa empresa é um lugar de paz e isso torna o trabalho ainda mais satisfatório e me enche de esperança", afirmou Mónica.

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