Armas e dinheiro sujo entram no México cruzando fronteira com os EUA

Martí Quintana.

Cidade do México, 4 out (EFE).- A chegada de armas de fogo e de dinheiro sujo são dois grandes perigos provenientes dos Estados Unidos que impactam o México, fortalecendo os cartéis da região e sua trilha de violência, e provando que a porosidade da fronteira comum também se dá do norte para o sul.

"Há estimativas que entre 10% e 15% do Produto Interno Bruto (PIB) está vinculado a atividades realizadas por grupos criminosos que aproveitam as vantagens da fronteira", disse à Agência Efe o analista José María Ramos.

Para esse professor e pesquisador do Departamento de Estudos de Administração Pública do Colégio da Fronteira Norte (Colef), a lavagem de dinheiro é um tema "complexo" que, no caso mexicano, carece de uma falta de força institucional para controlá-lo.

Segundo o relatório "Lavagem de dinheiro: indicadores e ações de governo binacionais" (2012) da Câmara dos Deputados do México, o Centro Nacional de Inteligência sobre Narcóticos dos EUA (NDIC, em inglês) estimou que cerca de US$ 39 bilhões são lavados fora de suas fronteiras.

A lavagem de dinheiro é "desenvolvida sobretudo pelas organizações criminosas de Colômbia e México,", acrescentou o documento.

E, segundo o Congresso de Washington D.C., anualmente entre US$ 19 bilhões e US$ 29 bilhões de lucros ilícitos "fluem dos Estados Unidos para cartéis do narcotráfico e outros grupos criminosos no México".

Ricardo Gluyas, especialista em prevenção de lavagem de dinheiro e professor do Instituto Nacional de Ciências Penais (Inacipe), estudou outro vetor igualmente importante, o transporte físico de dinheiro do norte para o sul da fronteira.

Um gotejamento incessante de notas que cruzam rumo ao México em "todo tipo de formas"; desde contrabando a pé ou escondido em veículos de carga.

"O dinheiro provém sobretudo da economia clandestina de organizações delitivas. E isto deveria ser objeto de controle, já que permite financiar os grupos criminosos no México", disse Gluyas, autor do "Estudo jurídico-penal do crime de contrabando equiparado no México".

Segundo a empresa KPMG, o contrabando de dinheiro dos Estados Unidos para o México foi de US$ 25 bilhões em 2006, segundo reflete um estudo do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o crime (UNODC) de 2011.

Para Gluyas, o contrabando se deve a que o controle aleatório em fronteira é insuficiente e à falta de revistas dentro dos EUA, especialmente para os veículos de carga.

A este enorme volume de dinheiro, que potencializa o poder dos cartéis no México, se soma o tráfico de armas a partir do norte.

"Há facilidade para colocar as armas dentro do México e traficá-las em direção ao interior e rumo à América Central", explicou Ramos, denunciando que faltam simples ferramentas de controle na fronteira como "detectores de metais".

Embora haja poucos dados a respeito, o Segundo Relatório de Trabalhos da Procuradoria Geral da República contabilizou que em 31 de julho de 2014 tinham sido confiscadas 8.540 armas longas vinculadas à criminalidade organizada.

Rastreadas com o apoio da Agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos EUA, se identificou que "aproximadamente 70% destas" provinham dos do país.

Na polêmica reunião de final de agosto entre o candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump, e o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, ambos lembraram a necessidade de abordar a problemática que gira em torno da fronteira.

Para Peña Nieto, nos EUA se tem uma visão "incompleta" que esquece que "os fluxos de dinheiros e armas" que chegam à nação latino-americana fortalecem "cartéis e outras organizações criminosas que geram violência no México".

Apesar de Trump ter falado também desta transposição "de armas e dinheiro", se centrou na problemática da "imigração ilegal" aos EUA, reiterando em solo mexicano que construirá um muro ao longo de toda a fronteira comum.

No entanto, para a doutora e pesquisadora especialista em migração internacional Elisa Ortega, esta visão simplificada de Trump da fronteira se traduz em "situações de extrema vulnerabilidade" para os milhares de imigrantes ilegais que todo ano percorrem milhares de quilômetros na busca de melhores oportunidades nos EUA.

"Isto os torna presas fáceis para os crimes do crime organizado", lembrou a especialista.

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