Homem dribla guerra e leva "brinquedos contrabandeados" as crianças em Aleppo

Susana Samhan.

Beirute, 6 out (EFE).- O engenheiro e empresário Rami Adham acaba de retornar de uma perigosa missão na Síria: levar brinquedos de contrabando para as crianças de Aleppo, onde tenta arrancar sorrisos entre os menores que sofrem as atrocidades da guerra.

Há quatro anos, este sírio natural de Aleppo, conhecido como o "contrabandista de brinquedos", arrisca sua vida cruzando ilegalmente a fronteira entre seu país natal e Turquia para levar os bonecos, jogos e bichos de pelúcia que consegue na Finlândia, onde vive.

Uma rota que realiza de avião partindo de Helsinque, até o sul do território turco, e a pé por uma arriscada travessia até Síria.

"Desde 2012, eu atravessei um total de 28 vezes, a última foi na semana passada", explica à Agência Efe, Adham, de 44 anos, e pai de seis filhos, em uma conversa pelo Skype.

"Tudo começou quando minha filha de 3 anos me deu seus brinquedos e depois os de suas irmãs para que os levasse para a Síria. Quando nós ficamos sem brinquedos em casa, os amigos e vizinhos começaram a dar-nos os seus e assim aumentou o círculo", relembra.

No início, Rami Adham viajava para Aleppo como qualquer cidadão sírio e cruzava a fronteira sem problemas, mas quando a Turquia fechou há ano e meio o limite comum, decidiu continuar, mesmo que ilegalmente.

"Atravesso com a ajuda de contrabandistas, ou melhor, me contrabandeado, foi assim que surgiu o nome de 'contrabandista de brinquedos'", relatou.

Normalmente ele chega à Síria andando após um trajeto que dura entre seis e oito horas, por uma paisagem acidentada e com uma carga de aproximadamente 60 quilos, já que em cada viagem tenta transportar entre 500 e 700 brinquedos.

"Só levo brinquedos e dinheiro, com o qual, compro na Síria coisas como comida e outro tipo de assistência. Se transportasse artigos de ajuda seria mais complicado e necessitaria de caminhões", detalhou.

Apesar da carga que carrega seja considerável, para Rami, o mais difícil é "fazer um cruzamento seguro da fronteira". Definitivamente, "não atire em mim", afirmou.

Uma vez dentro do território sírio, é levado por seus amigos de carro para a cidade de Aleppo e zonas de sua periferia, assim como campos de deslocados.

Os brinquedos são distribuídos entre órfãos amparados por famílias e pessoas que conhece, já que Adham dirige a ONG Suomi Syyria Yhteiso, dedicada a padrinhar menores sírios.

"Temos cerca de 300 órfãos e cada vez que viajo os visito e levo chocolates e brinquedos; aos maiores entregamos uma pequena ajuda monetária para as crianças", disse.

Ele não trabalha com orfanatos, mas ajuda crianças que vivem com parentes. "Toda vez que vou, meus parceiros locais são contactados para que possa vê-los", afirmou.

E é que o "contrabandista de brinquedos" prefere, colaborar com lugares que possa visitar: "Necessito apoiar projetos que eu possa ver fisicamente com meus próprios olhos, preciso ver as pessoas, me reunir com eles e ver o que necessitam".

Sua última visita a Aleppo, onde esteve nos arredores da cidade, foi especialmente difícil.

"A situação em Aleppo está mais difícil que nunca, dentro da cidade estão vivendo um assédio brutal, estão isolados de todos aqueles ao seu redor, e todos os dias a Rússia e o regime bombardeiam a região, matando dezenas e mesmo centenas de pessoas", lamentou.

Apesar da evolução dos conflitos, Rami Adham afirma que seguirá viajando para a Síria com o objetivo de distribuir brinquedos entre as crianças.

Seu projeto alcançou tal notoriedade, que seu depósito de bonecos já abriga dezenas de milhares doados por pessoas, já que não recebe o apoio de nenhum governo ou instituição.

"Comecei com minhas economias e vou continuar fazendo até eu ficar sem elas", ressaltou Adham, que abandonou seu trabalho como engenheiro e agora se dedica totalmente a seu trabalho humanitário, além de seu negócio de venda de produtos nutricionais para atletas na Finlândia, onde foi morar há 28 anos, com o propósito de completar seus estudos.

"Tenho a sorte de viver aqui, há comida na geladeira, meus filhos vão para a escola de graça e necessito pouco mais, só um pouco de dinheiro para sobreviver", afirmou.

Sobre o futuro da Síria, Rami Adham é "muito pessimista", porque "um dos membros do Conselho de Segurança da ONU está envolvido nos massacres matando meu povo (se referindo a Rússia), enquanto as resoluções contra as atrocidades na Síria são vetadas pela Rússia e China", lamentou.

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