Afeganistão ganha primeiro restaurante planejado por mulheres para mulheres

Baber Khan Sahel.

Cabul, 7 out (EFE).- Criado como um projeto para vítimas de maus-tratos, um grupo de mulheres abriu o primeiro restaurante para mulheres no Afeganistão, um espaço pensado para ajudar àquelas que sofrem abuso físico e psicológico de uma sociedade machista e querem desfrutar uma comida sem sofrer com estigmas ou com o assédio.

Um lugar para comer sem que dezenas de olhos estejam encarando, onde uma mulher possa beber água sem que o marido precise passar o copo por baixo da burca ou onde possa conhecer a vida da mulher afegã através dos rostos de outra época, assim é o restaurante Bost Family.

Concebido como um projeto para mulheres maltratadas, após um trabalho de quase três anos da ONG Centro para o Desenvolvimento do Talento das Mulheres Afegãs (AWSDC), o local é há cerca de um mês um lugar de encontro para mulheres e famílias que querem desfrutar de uma opção nem sempre fácil em Cabul.

Cerca de 25 jovens, em sua maioria vítimas de violência doméstica, trabalham como garçonetes e cozinheiras no primeiro restaurante construído, decorado e dirigido por mulheres na capital do Afeganistão.

Em uma parede laranja, retratos das mulheres dos reis afegãos; sobre as mesas, comida tradicional e de outros lugares com a qualidade de um restaurante de primeiro nível, onde procuram alimentar, além do corpo, o espírito.

"Nossa sociedade ainda não atingiu a maturidade para aceitar novas práticas e costumes para a sociedade de hoje", afirmou à Agência Efe Humaira Kohzad, fundadora do restaurante e consultora.

Humaira quer que o local seja um "lugar seguro para que as mulheres possam se reunir, sentir-se livres, longe do assédio nas ruas e onde possam conversar enquanto comem".

"Se um homem vai a um restaurante com sua namorada em Cabul, todos os homens olham para a menina. Como vão desfrutar a comida?", questionou a ativista, ressaltando que esta é uma das razões pela qual as famílias não frequentem este tipo de estabelecimento.

A única maneira que eles encontram, segundo ela, é pagando um bom dinheiro para viajar ao exterior e poder desfrutar lá de um espaço público.

"Queremos dar-lhes isso a menor custo", afirmou, mencionando um menu onde o prato mais caro custa aproximadamente US$ 5.

E está funcionando. Dezenas de famílias já visitam diariamente este restaurante localizado no coração da cidade onde os homens são apenas responsáveis pela segurança, e onde outras funções, exceto a de chef de cozinha, são desempenhados por mulheres.

Durante um ano as trabalhadoras serão também aprendizes que se capacitarão em questões como gestão de negócios, hotelaria ou serviços gastronômicos e se graduarão com a ideia de começar elas mesmas um negócio onde a AWSDC possa ajudar.

"Podem abrir seu próprio restaurante, não importa se grande ou pequeno, ou mesmo uma cafeteria", disse a promotora.

Os benefícios do restaurante também chegam aos bolsos das funcionárias, sobreviventes da violência e das dificuldades que passaram, algumas delas sem família e todas na luta para continuar sua vida após o trauma.

Aryan tem 23 anos e é mãe de três crianças de entre um e quatro anos. Foi vítima de violência em seu lar e se separou do marido há um ano.

Buscou refúgio em um abrigo da ONG e hoje é uma garçonete no restaurante, mas, apesar dos 15 anos de progressos para a mulher, após a queda do regime talibã em 2001, a conservadora sociedade afegã segue considerando um tabu que as mulheres trabalhem fora ou tenham seu próprio negócio.

"Sofri muito, minha família não me deixava trabalhar, venho aqui na busca de refúgio, meu único objetivo é agora permanecer firme e ter meu próprio negócio para alimentar meus três filhos", afirmou Aryan, sem esconder a expressão de tristeza.

"Como membros da sociedade, quero cuidar dos meus filhos, quero ter outra vez minha própria vida e minha própria identidade", completou.

Humaira Kohzad diz que é tempo de mudar e que as mulheres devem brigar para ter sua própria identidade.

"Por quanto tempo ainda as mulheres devem ser identificadas através da identidade de seu marido, de seu pai?", se perguntou, olhando para a parede laranja. Nela, entre os rostos das primeiras-damas, aparece uma mulher com burca.

"Você conhece esta mulher?", pergunta, e sem esperar, já responde "é a mulher do mulá Omar", esposa do falecido líder dos talibãs.

Ela explicou que todos os afegãos sabem dos reis do Afeganistão, mas quase não conhecem as mulheres que viviam com eles e por isso trataram de retratá-las no tempo em que viveram.

E a mulher com burca reflete o governo dos talibãs, quando todas foram obrigadas a usar aquela roupa e estarem sempre acompanhadas por um homem quando saíam de casa, disse.

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