Mulheres do Quênia relatam detalhes do "desgosto poligâmico"

Desirée García.

Nairóbi, 7 out (EFE).- Monica Mwagicuh foi a primeira, por isso foi difícil aceitar que seu marido quisesse se casar com outra depois, e com uma terceira anos mais tarde; porém nos casamentos polígamos, um tipo de união comum na África, "as mulheres sofrem".

Há um ano e meio que esta queniana de 39 anos deixou de compartilhar a cama com seu marido e as outras esposas. Também não pede permissão para voltar para casa após o pôr do sol nem recebe chicotadas quando as demais não cumprem com suas tarefas no lar.

Monica se divorciou, mas a poligamia lhe deixou graves sequelas, algumas tão visíveis como uma cicatriz que corta a parte inferior das costas, que seu marido fraturou após uma surra.

No Quênia, o mesmo país que pune as relações homossexuais com prisão, a lei permite que os homens se casem com as mulheres que desejem sem ter de pedir permissão a suas esposas.

A origem deste tipo de família, que sobrevive além da expansão da monogamia associada ao cristianismo no Quênia, se encontra na elevada mortalidade infantil que persistiu até algumas décadas atrás.

"As mulheres tinham dez filhos e só sobreviviam três", portanto, para o homem, a melhor maneira de garantir uma grande descendência era se casar com várias, explicou à Agência Efe, a advogada da Federação de Mulheres Advogadas (Fida) Mbeti Michuki.

Hoje, a poligamia depende das "preferências pessoais" do homem, sendo que 28% deles tem mais de uma mulher na África Subsaariana, e especialmente no oeste do continente, segundo relatórios demográficos divulgados em 2013.

Nodia em que a então universitária Monica conheceu seu marido, ela usava minissaia, uma peça de roupa que seu marido não lhe permitiria voltar a vestir.

No início as coisas correram bem: ele prometeu que não se casaria com outra mulher (embora viesse de uma família quicuiu polígama), tiveram quatro filhos e construíram uma fazenda que onde viviam bem.

Após seis anos de casamento, a família política de Monica começou pressionar seu marido: "Por que você tem apenas uma mulher se você pode ter mais?".

"Quando se casou com outra, as coisas foram muito mal. Queria que acolhesse minha irmã, e à noite ele a levou para cama. Fizeram amor ali mesmo, do meu lado", lembrou à Efe Monica, que não foi permitida a deixar a casa por ser a primeira esposa.

Três anos depois, chegou a terceira, já grávida, e entre todas somaram uma prole de dez filhos e um trabalho diário enorme.

"Eu tinha que encontrá-lo na porta, levar seus sapatos, lavar os pratos, trata-lo como um rei. Como era a primeira, devia fazer tudo isso. Se algo ia mal, me batia", relembrou.

Após 19 anos de vida em comum, o que antes era "amor" praticamente tinha desaparecido, e não só pelas humilhações: "Ainda hoje me sinto muito ciumenta", admitiu.

De acordo com a advogada da Fida, não costuma haver "nada de romântico" neste tipo de relações, que no entanto reportam benefícios a algumas mulheres: "Quanto mais rico o seu marido, melhor você vai viver".

A ex-miss Quênia, Cecilia Mwangi, segunda esposa de um deputado cujo nome não quer revelar, defende este vínculo: "Devemos abraçar a cultura africana", disse ela.

Além do romance, o principal problema com tais uniões é que as mulheres ficam desamparadas. Quando o polígamo as abandonam, algo que ocorre com frequência, elas perdem os direitos sobre suas terras e seus outros meios de vida.

Monica não foi abandonada, mas sua decisão de se divorciar e desafiar a tradição lhe impede de ver seus filhos e a separou de sua comunidade, onde é considerada "uma peça de roupa usada".

"Como mulher africana, não tem direitos, não pode dizer não, nem contestar o marido. O homem é o rei", lamentou.

A Fida insiste que a lei não levanta problemas de desigualdade, e isso apesar de não contemplar a poliandria, u a união de uma mulher com vários homens, praticada por tribos como a kamba.

"Há mulheres que preferem ser segunda mulher a continuar solteiras, porque têm segurança. Até mesmo a primeira mulher pode considerar algo bom, pois a outra vai ajudá-la com as crianças e a casa", disse a advogada.

Para Monica, um caso raro de rebeldia contra as tradições, essa situação é tão idílica como extraordinária.

"Felizes? Uma ou duas de cada dez. As coisas são muito difíceis lá, você não pode sequer imaginar", relatou.

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