Santos, derrotado no referendo, ganha o Nobel da Paz

Bogotá, 7 out (EFE).- O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, agraciado nesta sexta-feira com o Prêmio Nobel da Paz, viu recompensados seus esforços, apesar do resultado do referendo do dia 2 de outubro, quando foi recusada a proposta de acordo com a guerrilha das Farc.

Nascido e criado nos círculos do poder, o destino parece ter tido reservado um papel além da chefia de Estado como o principal patrocinador de um acordo para acabar com um conflito armado que há mais de meio século faz o país sangrar.

Apesar do revés, Santos manteve o cessar-fogo e reiterou sua vontade de incluir no acordo a quem politicamente se opõem, liderados pelos ex-presidentes Álvaro Uribe e Andrés Pastrana.

"A história olha para nós. Não nos perdoará se não tentarmos acabar de uma vez por todas com este sangramento inútil", disse na inauguração das sessões do Congresso Nacional no dia 20 de julho de 2013, quando a negociação com as Farc em Cuba já acontecia há oito meses.

Mas a paz, "o bem supremo de toda sociedade", segundo disse várias vezes, não foi sempre sua prioridade. Ele também ressaltou que "ninguém foi mais duro com as Farc do que este servidor", referindo-se a sua gestão como ministro da Defesa (2006-2009), no segundo mandato de Álvaro Uribe, e depois como chefe de Estado.

Como ministro ou como presidente, teve a ver com operações nas quais morreram os então número um das Farc, conhecido como "Alfonso Cano" (2011); o número dois, conhecido como "Raúl Reyes" (2008); o chefe militar dessa guerrilha, conhecido como "Mono Jojoy" (2010), assim como 63 líderes de frentes rebeldes.

Por isso, após debilitar as Farc com golpes militares, uma guerrilha cujos chefes pareciam invulneráveis até 2008, Santos considerou chegado o momento de fazer uma negociação.

Essa "ousadia" provocou a ruptura com Uribe, que o tinha escolhido como seu candidato para a Presidência em 2010, e com um grande setor da sociedade que não o perdoa por ele ter trocado as armas por conversas de paz e o acusa de "entregar o país para as Farc".

Santos, que tem uma forte identificação com os militares, pois quando jovem foi membro da Marinha Nacional, fato que lembra cada vez que pode, ignora as críticas e com a habilidade de jogador de pôquer que quem o conhecem de perto lhe atribui, levou adiante o acordo porque tem certeza que "o destino do país é a paz".

Aos 65 anos e em seu segundo mandato, este economista e jornalista de Bogotá tem assegurado seu lugar na história porque conseguiu assinar uma paz que seus antecessores na Presidência também buscaram desde a década de 80, mas não conseguiram.

Nascido no dia 10 de agosto de 1951 em uma família aristocrática da capital, Santos conhece o poder desde o berço, pois um tio-avô seu, o liberal Eduardo Santos, foi presidente da Colômbia entre 1938-1942.

Sua família foi durante décadas proprietária de "El Tiempo", o jornal mais influente do país, onde começou sua atividade como jornalista e que alternou com uma longa carreira na administração pública, coroada em 2010 ao chegar à Presidência, sendo reeleito em 2014 para um segundo período que terminará em 2018.

O presidente é casado com María Clemência Rodríguez, com quem tem três filhos: Martín, María Antonia e Esteban. O primogênito dirige a Fundación Buen Gobierno.

Graduado em Economia e Administração de Empresas na Universidade do Kansas (EUA) e com pós-graduação da Escola de Economia de Londres, da Universidade de Harvard e da Escola Fletcher de Leis e Diplomacia, também nos EUA, Santos tem um currículo brilhante que o preparou para chegar ao poder.

Nos anos 70 trabalhou em Londres como chefe da Delegação da Colômbia na Organização Internacional do Café (OIC) e depois retornou ao país como colunista e subdiretor de "El Tiempo".

Em sua longa vida pública foi também ministro do Comércio Exterior (1991-1994) no governo de César Gaviria, e Designado Presidencial (1993-1994), cargo já abolido e cuja função era a de assumir a chefia do Estado em caso de ausência do presidente.

Foi, além disso, titular de Fazenda entre 2000 e 2002, no governo de Andrés Pastrana, e ministro da Defesa de Uribe, cargo no qual liderou a aplicação da política de Segurança Democrática de seu chefe e que o levou à Presidência.

Com o olfato político que o caracteriza, percebeu que o pêndulo da história se movimentava em direção à negociação e embarcou na viagem da busca da paz que finalmente assinará em Cartagena de Indias.

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