"Luta contra fome deve estar no topo da agenda", afirma José Graziano

Macarena Soto.

Roma, 10 out (EFE).- O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), José Graziano da Silva, acredita que a luta contra a fome deve estar "no topo da agenda política", segundo disse em entrevista à Agência Efe por ocasião da próxima Cúpula Ibero-Americana de Cartagena (Colômbia).

"Acredito que devemos reivindicar a nossos dirigentes que situem a luta contra a fome no topo da agenda política de cada país, sem medo que nos chamem de idealistas, ou até mesmo loucos", declarou Graziano, principal responsável da FAO desde 2012.

Filho de migrantes italianos, a vida de Graziano poderia confundir-se com a de qualquer outro paulistano se não fosse por sua insistência na luta contra a fome, que lhe transformou em um dos grandes nomes do progresso brasileiro na erradicação da miséria.

Graziano se mostra seguro que erradicar a fome "é possível" e que é uma questão de vontade política: "Se trata de querer fazer. Não devemos esquecer que a alimentação é um direito humano fundamental".

"Nosso planeta produz alimentos suficientes para alimentar a todos e, no entanto, ainda há quase 800 milhões de pessoas que passam fome e mais de 2 bilhões com sobrepeso", analisou o brasileiro, que apontou que "isto nos demonstra que nossos sistemas alimentícios são, além de pouco eficientes, altamente desiguais".

Nesse sentido, ressaltou que "cerca de um terço dos alimentos produzidos no mundo para consumo humano (1,3 bilhão de toneladas anuais), se perde ou se desperdiça".

Além disso, lembrou que "a maioria das perdas" acontece "nos países em desenvolvimento ou ao longo da cadeia de fornecimento antes de chegar ao consumidor" e, por outro lado, "a maior parte dos esbanjamentos se produz nos países desenvolvidos após a compra".

"Algo simples que todos podemos fazer como consumidores é interessar-nos por aprender e informar-nos sobre escolhas de consumo mais responsáveis e mais justas", sugeriu.

Graziano sabe que lutar contra a fome é uma batalha árdua, mas não impossível. Com a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003, o projeto Fome Zero, do qual foi ideólogo, elaborou um sistema de políticas sociais e econômicas que segue dando oportunidades a milhões de brasileiros.

Sua passagem pela direção do Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e de Combate à Fome lhe aproximou ainda mais da miséria de um Brasil então muito mais desigual e da diretriz política que insistia que "um único brasileiro com o prato vazio é suficiente para envergonhar toda a nação".

Sua chegada à FAO lhe permitiu ampliar o mapa geográfico e conhecer toda a região ibero-americana, onde a América Latina desponta por seu compromisso para acabar com a pobreza de seus cidadãos.

Nessa linha, Graziano comemora que os governos latino-americanos tenham assumido "o compromisso político de não só reduzir a fome, mas erradicá-la totalmente no ano 2025".

"Os governos estão atacando tanto as causas subjacentes da fome como seus focos mais agudos, fortalecendo todas as dimensões da segurança alimentar, diminuindo o esbanjamento alimentício, estimulando a agricultura familiar e o comércio intrarregional", elogiou.

Apesar disso, Grazino alerta que "ainda resta caminho pela frente", porque ainda "34 milhões de homens, mulheres, meninas e meninos seguem vivendo com fome" na região latino-americana, somado a "um problema de saúde pública relacionado com os elevados números de sobrepeso e obesidade".

"Na atualidade se estima que 7,2% dos menores de 5 anos apresentam sobrepeso, e a média de obesidade entre os adultos se situa em torno de 22,8%", lamentou, embora reconheça que "alguns países fizeram progressos neste sentido e abordaram de forma contundente a luta contra a obesidade infantil".

O diretor da FAO salientou "o grande potencial" da Cooperação Sul-Sul e triangular que fomenta a troca de recursos, tecnologia e conhecimento entre países em desenvolvimento e na qual região ibero-americana é pioneira e líder em nível mundial.

Segundo sua opinião, este tipo de cooperação "não substitui à Norte-Sul", mas "oferece um modelo de desenvolvimento complementar": "Demonstrou ser rentável e se rege pelo princípio de solidariedade, particularmente importante entre os países que contam com maior experiência recente para enfrentar os desafios comuns de desenvolvimento".

"Segundo o relatório sobre Desenvolvimento Humano 2014, os países do Sul produzem a metade do crescimento econômico mundial e representam 47% do comércio mundial, do qual cerca da metade se realiza entre países do Sul. Fica claro que a Cooperação Sul-Sul está aqui para ficar", finalizou.

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