"Quem está rezando por Benghazi?", a Aleppo da Líbia

Mohamad abdel Qadeer.

Trípoli, 11 out (EFE).- Palco há meses de bombardeios e combates diários, o bairro de Ganfuda, no coração da cidade de Benghazi, no leste da Líbia, tem pouco ou nada a invejar - para sua própria desgraça - da cidade síria de Aleppo.

Há mais de um ano e meio que o silêncio não persiste na cidade, quebrado pelo tenebroso ruído dos fuzis e os estrondos das bombas, enquanto bens necessários como a água corrente, e qualquer alimento fresco, são um luxo de um distante tempo que quase já foi esquecido.

Território de grupos islamitas moderados ligados ideologicamente ao movimento da Irmandade Muçulmana, mas também de milícias jihadistas, a cidade sofre o cerco levantado pelas tropas da "Operação Dignidade", a ofensiva lançada pelo obscuro marechal Khalifa Hafter, o homem forte do leste de Líbia.

Um assédio que transformou Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia e capital da revolta contra a ditadura de Muammar Kadafi, em um lugar fantasma, refém da violência e cenário de uma tragédia humanitária esquecida.

"A vida de centenas de civis, tanto locais como estrangeiros, que vivem em Ganfuda está em perigo após meses de assédio e de bombardeios contínuos por parte da Operação Dignidade", advertiu na última sexta-feira a organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional (AI).

"O tempo está acabando para os moradores de Ganfuda, que estão presos entre os combates e abandonados à morte. Os bombardeios aéreos e de artilharia 'chovem' sobre eles, enquanto lutam para sobreviver sem comida e com água suja", acrescentou a ONG.

Um Taha lidera uma das 170 famílias presas em Ganfuda, uma das muitas "mães coragem" que se escondem nos porões dos poucos edifícios que não foram derrubados pela aviação de Hafter, que é apoiado por países como Egito, Arábia Saudita, Rússia, França e Turquia.

"A vida aqui é impossível. A água não é potável e os alimentos estragaram há muito tempo. Também não temos gás", explicou Um Taha à Agência Efe.

"Nós podemos aguentar, mas temos crianças. A cada dia nossos filhos se levantam com o barulho dos bombardeios, esperando sua vez de morrer. Estão em estado de choque e ficaram muito agressivos", relatou a líder com desesperança.

Hafter, homem forte no seio do parlamento de Tobruk, único governo que mantém o reconhecimento internacional, nega que em Benghazi ou em Ganfuda esteja acontecendo um genocídio e insistiu que todos os que estão lá são "terroristas" vindos do exterior.

"Se há famílias lá, devem ser turcas, catarianos, berberes e de países africanos. O relatório da AI distorce a realidade e carece, portanto, de credibilidade", respondeu na própria sexta-feira Ahmed al Masmari, porta-voz da "Operação Dignidade", à emissora de televisão "Al Akhbariya".

Masmari criticou a comunidade internacional ao afirmar que os países "não pedem para Benghazi corredores humanitários como fazem na Síria e no Iraque", e denunciou que as informações recolhidas pela AI e por outras organizações "procedem de grupos terroristas", aos quais ele preferiu não identificar.

"Os bombardeios prosseguirão até que o bairro seja conquistado", acrescentou o porta-voz.

No entanto, Masmari afirmou que a "Operação Dignidade" está disposta a facilitar a saída dessas famílias que diz não reconhecer e que, para isso, desenhou um plano de evacuação em três períodos.

"Crianças, idosos e mulheres podem se dirigir por terra às posições de nossas forças. Os que preferirem sair por via marítima rumo às cidades do oeste podem fazê-lo através do porto de Al Marisa", indicou o porta-voz.

"O restante, incluídos os feridos, serão presos até que sejam julgados por seus crimes cometidos em Benghazi. Será formado um comitê para desarmá-los e serão julgados com garantias processuais", indicou Masmari.

No entanto, este plano, que foi divulgado através da "Al Akhbariya", é visto pelos moradores de Benghazi como um humilhante pacto de rendição.

"As forças de Hafter pretendem nos encarcerar com essa iniciativa, pois impedem a saída de todos os que tenham entre 13 e 65 anos", explicou Um Taha, que acabou se transformando em uma porta-voz improvisada dos que ainda resistem na cidade.

"Eles também exigiram uma lista com todos os nossos nomes, o que nos coloca perigo. Não confiamos na palavra de Hafter", concluiu Um Taha, antes de perguntar: "Alguém está rezando por Benghazi?".

Membro da cúpula que levou Kadafi ao poder, e recrutado depois pela CIA, Hafter se transformou no final da década de 1980 no principal opositor do antigo regime líbio no exílio.

Após residir nos Estados Unidos, Hafter retornou à Líbia em 2011, poucos meses depois que explodiu a revolução, e se uniu aos rebeldes até conseguir que o governo de Tobruk o nomeasse chefe do exército líbio em 2014.

Senhor do petróleo, um recurso que tomou das milícias aliadas ao chamado governo de unidade (apoiado pela ONU) em setembro, advertiu em várias ocasiões que não deixará a luta armada até que submeta Benghazi e conquiste Trípoli.

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