Advogados abandonam defesa de suspeito do atentado do ano passado em Paris

Paris, 12 out (EFE).- Os advogados de Salah Abdeslam, o único suspeito vivo dos atentados de Paris, no dia 13 de novembro do ano passado, abandonaram sua defesa devido ao silêncio que mantém seu cliente, afirmaram nesta quarta-feira diversos veículos de imprensa.

O belga Sven Mary e o francês Frank Berton afirmaram ao semanário "Le Nouvel Observateur", da França, que Abdeslam "não colabora mais" e se mostraram convencidos que manterá sua decisão de permanecer em silêncio.

"Não podemos continuar defendendo a palavra de um homem que está em silêncio. É uma decisão que amadurecemos (...) No momento onde se rejeita a estratégia de defesa que estamos propondo é necessário deixá-lo", afirmou Mary, advogado que cuidando da causa desde a prisão de Abdeslam, em Bruxelas (Bélgica), em março, quatro meses após os atentados que deixaram 130 mortos na capital francesa.

Os dois advogados avisaram da decisão para Abdeslam que entendeu que "os caminhos deviam se separar" e que escreveu ao juiz de instrução anunciando que não quer outros advogados.

Berton e Mary disseram que tinham aceitado a defesa do suspeito desde que ele aceitasse a falar, mas nas últimas semanas houve uma mudança de comportamento do suposto terrorista, e ele parou de coorperar, optando por ficar em silêncio.

Tanto Berton como Mary consideraram que as duras condições carcerárias que Abdeslam está submetido, isolado em uma cela com câmera de segurança permanente durante 24h, estão na origem de sua mudança de atitude.

"No começo ele confiava em mim. Mas há sete meses assisto ao espetáculo de um rapaz de 27 anos que se afunda psicologicamente (...) É o sistema carcerário organizado sobre ele que está fazendo isso", afirmou Berton.

Mary foi mais longe e disse que, desde sua prisão, os discursos das autoridades francesas, incluindo a Promotoria, o fez pensar que seu destino estava selado, o que o levou a não querer cooperar com a justiça.

Berton afirmou que "Abdeslam não foi responsável pelos atentados de Paris" mas que "o poder político resolveu responder ao populismo tratando-o como se fosse" e tratando-lhe "como um rato em uma caixa".

"A prisão está transformando Salah Abdeslam em um animal selvagem. Sua janela está obstruída por um plástico, não entra ar. Ele vê sua família por trás de um vidro, não tem contato físico com ninguém. É degradante. Em 25 anos de carreira nunca vi isso", disse o advogado francês.

Acrescentou que Salah Abdeslam foi transformado em um símbolo da luta antiterrorista, que não serve para fazer avançar a busca da verdade.

Berton afirmou que "a lei autorizando a vigilância por câmera, incluindo a de infravermelho, não era necessária" e disse que "e você quiser cometer suicídio, o fará".

Esse tratamento, que Mary qualificou de "tortura psicológica", está levando, segundo os advogados, o preso a se radicalizar em sua postura e a "se fechar em seu silêncio" e na "proteção de Deus".

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