Cooperação para desenvolvimento precisa ser traduzida a línguas dos indígenas

Belém Delgado.

Roma, 12 out (EFE).- Os projetos de cooperação para o desenvolvimento ainda têm uma tarefa pendente: que seus executores falem os idiomas dos povos indígenas aos quais ajudam a sair da pobreza e da exclusão social.

No mundo existem mais de 5 mil povos indígenas com mais de 4 mil línguas diferentes. No total são mais de 370 milhões de pessoas que vivem em muitos casos marginalizadas e sem as quais a comunidade internacional não pode avançar em sua agenda de desenvolvimento traçada para 2030.

Conseguir o objetivo fixado de erradicar a pobreza global significa atender também às necessidades de minorias como os indígenas, que nesta nova etapa esperam poder expressá-las em seu próprio idioma.

"É preciso deixar as línguas das pessoas falarem", disse em um recente ato em Roma o guatemalteco Álvaro Pop, presidente do Fórum Permanente da ONU para as Questões Indígenas, que em sua língua maia natal pediu que se "fale com o coração, porque a razão não tem coração".

Os representantes indígenas convidados nesta semana para uma reunião com agências das Nações Unidas na capital italiana concordaram quanto à necessidade de dar voz a esses povos e consultá-los sobre qualquer iniciativa que possa lhes afetar.

A especialista Carol Kalafatic explicou que, para que as comunidades deem seu consentimento livre, prévio e informado, precisam estar informadas sobre os detalhes dos projetos, que são transmitidos melhor em sua própria língua e seguindo seus costumes. E isso porque para eles a cultura é, além disso, uma questão primordial, especialmente os idiomas, que segundo Pop são "o DNA dos povos indígenas, e é lá onde está sua cosmovisão".

A aceitação dos projetos de desenvolvimento nesses contextos tão particulares se estende também ao mundo da cooperação.

Frente ao enfoque tradicional "de ponta a ponta", com burocratas e técnicos que elaboram programas depois aplicados no terreno, os povos indígenas insistem em se envolver em todos os períodos do processo.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) acaba de lançar um manual para aprovar apenas aquelas iniciativas que incorporem padrões que garantam o respeito aos direitos indígenas.

Outras organizações também se comprometeram a desenvolver mecanismos para a proteção dessas pessoas, como a ONG Ação contra a Fome, cujo diretor-executivo, Olivier Longue, considerou fundamental entrar para trabalhar nas comunidades compartilhando seus próprios registros.

Longue mencionou um projeto no Peru, onde uma de cada três crianças menores de cinco anos sofre anemia e no qual até pouco tempo quase todas as mulheres grávidas tinham os conhecimentos para evitar esse problema, apesar de muito poucas os aplicarem.

O diretor-executivo da ONG disse que a situação melhorou com um programa de sensibilização em quíchua que impulsionaram com uma equipe de etnólogos locais, recorrendo também aos sistemas de valores e de pensamento dos próprios indígenas.

Assim, por exemplo, foram recuperadas velhas receitas tradicionais desses povos e foram descartados produtos comprados pelas autoridades que - segundo sua opinião - não tinham dado resultado.

A compreensão da população local sobre a dimensão dos problemas pode determinar o sucesso ou o fracasso da ação no terreno.

Aconteceu na Guiné, durante a emergência do ebola, quando as primeiras equipes sanitárias destinadas a áreas carentes do país foram atacadas brutalmente por multidões enfurecidas que não sabiam como fazer frente à epidemia.

Após essa "má recepção", Longue apontou que foi possível trabalhar com os chefes tribais para introduzir as recomendações nas comunidades.

Ignacio Bellés, do Programa Indígena da Agência Espanhola para a Cooperação Internacional e o Desenvolvimento (AECID), comentou que desde 2014 estão centrados em apoiar os procedimentos de consulta prévia a esses povos.

A Espanha facilita a comunicação entre os indígenas, os governos e as empresas, ao mesmo tempo que organiza oficinas regionais com a intenção de melhorar as capacidades indígenas e a fomentar a "empatia" entre os diferentes atores.

"As grandes empresas estão aprendendo que têm mais segurança jurídica quando respeitam o consentimento prévio, livre e informado dos indígenas", ressaltou Bellés, que insistiu no valor do "diálogo".

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