Deslocados iraquianos usam a arte para curar as feridas da guerra

Amer Hamid.

Bagdá, 13 out (EFE).- As feridas mais difíceis de curar nas crianças deslocadas do Iraque não são as que se podem ver em seus corpos, mas as que estão escondidas em suas almas. No entanto, diversas pessoas e organizações humanitárias encontraram um remédio para essa questão: a arte.

Através de aulas de pintura, música, teatro, leitura e escrita, um grupo de pessoas, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e outras organizações locais tentam apagar de suas cabeças as lembranças da guerra e as consequências de sua fuga.

"No início, juntava algumas crianças na minha tenda, onde ensinei a pintar, ler e escrever", disse à Agência Efe Aliaa Ibrahim, uma professora de pintura deslocada no acampamento de Abu Ghraib, a dois quilômetros da capital Bagdá.

Em seguida, o fluxo foi tão grande que Aliaa decidiu montar uma tenda de campanha apenas para aulas, graças à permissão da gestão do campo de deslocados.

"Um grupo de pessoas de áreas próximas, que vieram um dia para distribuir ajuda aos deslocados, gostou da ideia e decidiu me ajudar com lápis, tintas, cadernos e alguns presentes para as crianças", continuou.

O boca a boca fez o resto. O número de estudantes começou a crescer gradualmente, e com isso Aliaa teve que recorrer a outros campos de deslocados com títulos acadêmicos para ajudá-la em sala de aula.

A professora considera que o projeto que realiza ao lado de suas companheiras, apesar de não atingir o grande número de deslocados que existe, é um passo no caminho correto para reabilitar as crianças e tirá-las do círculo da violência.

Por enquanto, Aliaa financia suas aulas com a bolsa de uma organização que lida com as questões infantis, além de doações de moradores da região.

Em outro acampamento perto da cidade de Baquba, capital da província de Diyala, no nordeste de Bagdá, Tahsin Ali afirmou que "as dificuldades sempre geram novas ideias, a necessidade aguça o engenho".

"No meio de circunstâncias difíceis no acampamento, onde reina o desemprego e a pobreza, cada pessoa deve pensar em uma maneira de sair desta situação em que vivemos", afirmou.

Aos 21 anos, Tahsin Ali reconhece sua habilidade para pintar e cantar. Mas, entre tudo que deixou para trás em sua fuga dos combates, estavam seu alaúde e os utensílios usados para desenhar.

Apesar disso, não desesperou e pediu um amigo que emprestasse um alaúde para sair da pobreza e ajudar a sua família.

Agora Tahsin organiza pequenos concertos para seus vizinhos do campo de deslocados, com o objetivo de fazer com que eles esqueçam, mesmo que por algumas horas, a difícil situação em que se encontram.

Junto ao jovem e seu alaúde, um grupo musical com um teclado e um tambor também atuam em outros centros de deslocados próximos, assim bem como em casamentos e outros eventos, e assim conseguem alguma renda para sustentar seus familiares.

Desta maneira, Tahsin Ali diz se sentir "feliz por poder alegrar e ajudar os deslocados" com a única ferramenta que possui.

Além da música e da pintura, em outros campos de deslocados é possível encontrar aulas de costura e barbearia, oferecidas por organizações humanitárias locais e internacionais.

Estes cursos são ministrados nos campos de deslocados localizados na região autônoma do Curdistão, como em Dohuk, Arbil e Suleimânia, explicou à Efe, Mujalad Khalaf, trabalhador da missão da ONU no Iraque.

Segundo as estimativas das Nações Unidas, existem quatro milhões de deslocados no Iraque e há o temor que este número aumente substancialmente quando iniciar a ofensiva militar para expulsar o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) da cidade de Mossul, localizada no norte do Iraque e onde permanecem até hoje mais de um milhão de civis.

As crianças deslocadas de Mossul, quando têm que abandonar seus lares, também estarão sendo esperadas por professores com seus pincéis, alaúdes, tesouras e alfinetes para que curem as feridas da guerra.

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