Extremista que matou governador e foi executado ganha mausoléu e homenagens

Jaime León.

Athaal (Paquistão), 16 out (EFE).- Entre cânticos religiosos e o barulho de martelos, centenas de pessoas se aproximam todos os dias do mausoléu em homenagem ao "santo" Mumtaz Qadri, executado por assassinar um político paquistanês que se opôs à polêmica lei antiblasfêmia e defendeu a cristã Asia Bibi.

A família e os seguidores do assassino extremista erguem um templo em sua homenagem enquanto o Supremo se prepara para estudar a apelação de Bibi, condenada à morte por blasfêmia em 2010, em um caso no qual, segundo ativistas de direitos humanos, está em jogo a "alma" do país islamita.

Cerca de 15 quilômetros ao norte de Islamabad, no pequeno povoado de Athaal, descansa em um leito de rosas o homem que atirou 28 vezes em 2011 no então governador da província de Punjab, Salmaan Taseer, por cometer blasfêmia ao defender Bibi e pedir mudanças na legislação.

Em uma procissão sem fim, várias pessoas se aproximam para render homenagem a um homem que consideram um herói por preservar o bom nome do profeta, depositam pétalas de rosa sobre seu túmulo e cantam belas orações, em meio aos trabalhos de construção do complexo.

"Meu filho foi escolhido por Alá para este propósito (matar Tasir) há muito tempo. Sempre foi especial", disse à Agência Efe Malik Bashir, pai de Qadri e supervisor da construção do templo em homenagem a seu filho.

Vestido de branco, com barba da mesma cor e gestos decididos, Bashir afirma que seu filho fez bem em matar o governador, já que, em sua opinião, ele insultou o profeta e o castigo por isso é a morte.

"O Corão diz assim e, se o governo não toma medidas, o povo tem que fazer valer a lei com suas próprias mãos", comentou com tranquilidade o idoso de 74 anos e pai de nove filhos.

A seu ao redor, um grupo de visitantes e trabalhadores concorda com as palavras do patriarca.

Todos os dias, centenas de pessoas, que nos fins de semana chegam a milhares, se aproximam do complexo de 1.500 metros quadrados em homenagem a Qadri, ainda em construção e composto por um templo onde se encontra seu túmulo, uma mesquita e três quartos.

"As bênçãos de Deus recaem sobre os templos de santos como Qadri. Por isso eu venho aqui", disse à Efe Nadeem Majeedi, professor de uma escola corânica que percorreu 120 quilômetros para visitar o túmulo pela terceira vez.

"Qadri me inspira a matar outros blasfemadores", confessou Majeedi.

A construção do mausoléu começou há quatro meses, após a execução de Qadri no final de fevereiro, e finalizará em um ano graças às doações de simpatizantes, segundo Bashir.

Considerado pelos grupos mais radicais do país como um herói por ter matado Tasir, de quem era seu guarda-costas, hordas de simpatizantes de Qadri realizaram uma procissão em março que seguiu o percurso da ambulância que transportou o corpo do islamita após sua execução.

Semanas depois, confrontos entre os seguidores de Qadri e as forças de segurança explodiram em Islamabad, o que obrigou a mobilização do exército.

Os islamitas exigiram então, a gritos, a execução de Bibi, de quem o governador Tasir foi um firme defensor.

Bibi, mãe de cinco filhos, foi condenada à morte em 2010 por supostamente insultar o islã após ser denunciada por algumas mulheres durante uma discussão em um poço de água no distrito de Nankana, na província de Punjab.

A cristã perdeu o recurso no Alto Tribunal de Lahore em 2014, mas o Supremo suspendeu a execução em meados de 2015 até estudar o caso de novo.

A audiência de apelação estava prevista para esta semana, mas acabou sendo adiada pela decisão de um dos três magistrados de se declarar impedido para julgar o caso por ter tomado parte no processo do assassinato de Tasir.

A rígida lei antiblasfêmia vigente no Paquistão foi estabelecida na época colonial britânica para evitar confrontos religiosos, mas, nos anos 1980, várias reformas promovidas pelo ditador Zia ul Haq favoreceram o abuso desta norma.

Na prática, esta legislação é utilizada contra as minorias religiosas e estabelece penas de prisão, e inclusive de morte, mas ninguém ainda foi executado por isso.

Pelo menos 50 pessoas foram linchadas por multidões ensandecidas após serem acusadas de blasfêmia nos últimos anos, algo que o pai de Qadri alerta que pode acontecer no caso de Bibi.

"Se a Corte Suprema a libertar, isso é um assunto seu. Mas se as pessoas decidirem fazer algo a respeito, eu não posso fazer nada para evitá-lo. Nada pode se colocar entre o povo e o amor pelo profeta", afirmou Bashir.

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