Jejum religioso leva adolescente à morte e reabre debate na Índia

Teresa Cambril.

Nova Délhi, 16 out (EFE).- A jovem indiana Aradhana Samdhariya deixou de comer por 68 dias, e a não ingestão de alimentos a levou à morte, um caso de jejum extremo por motivos religiosos e que reabriu o debate sobre o tema no país, onde alguns a consideram uma mártir e outros alertam que sua morte é, na verdade, um crime.

Aos 13 anos, Aradhana era integrante do jainismo, uma antiga religião praticada por 0,4% dos 1,25 bilhão indianos e realizou o ritual da "santhara", um jejum que se prolongou por dois meses, período em que ela só tomava água.

A jovem de Hyderabad, no centro-sul do país, já tinha deixado de se alimentar por motivos religiosos outras duas vezes, uma delas durante uma semana e na outra durante 34 dias, e segundo os seus pais, ela aderiu ao jejum "por vontade própria".

No entanto, a ONG Balala Hakkula Sangham, que trabalha nesta região do país pelos direitos das crianças, denuncia que os pais forçaram a menina a parar de comer para prosperar a joalheria da família, que não andava bem. A ideia era que se ela cumprisse o ritual a loja seria milagrosamente recompensada.

"Isso é o assassinato de uma menina inocente de 13 anos em nome de tradições religiosas", disse a presidente da Balala Hakkula Sangham, Achyuta Rao, em entrevista à Agência Efe.

A escola frequentada pela jovem, e onde ela deixou de ir 26 dias após começar o jejum, também não tentou nada para fazê-la desistir da ideia, o que provocou fortes críticas, como a do prestigiado jornal "The Indian Express" em um editorial no qual garantiu que sua morte tem "muitos cúmplices".

As autoridades abriram uma investigação contra os pais de Aradhana, que já foram interrogados, embora, por enquanto, ninguém tenha sido preso, segundo informou a Polícia.

A adolescente morreu no dia 3 de outubro por causa de uma parada cardíaca e sua morte reacendeu o debate em torno das práticas jainistas na Índia, um culto que defende o autocontrole total e o amor a todos os seres vivos.

Há um ano, a Corte Suprema do país reconheceu o direito dos jainistas a morrer de fome através da "santhara", uma forma de suicídio religioso que seus fiéis realizam deixando de comer e que por ano tira a vida de, aproximadamente, 1.000 pessoas. Uma prática ancestral que alguns fiéis realizam quando alcançam a velhice ou sofrem de uma doença terminal.

No entanto, a lei indiana proíbe o suicídio nos demais casos e inclusive em determinadas ocasiões alimentou à força pessoas que entraram em greve de fome, como ocorreu recentemente com a ativista indiana Irom Sharmila.

O funeral de Aradhana reuniu centenas de fiéis, que transportaram seu corpo e a transformaram na última, e talvez mais jovem, mártir do jainismo.

"No enterro dela, as pessoas falavam na sua grandeza. Elas estavam orgulhosas e seus familiares estavam felizes porque o negócio estava melhorando. Para eles, é a morte de uma santa", lamentou Achyuta, que qualificou a morte de Aradhana de "brutal assassinato".

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