Refugiados somalis são empurrados a voltar em um país em guerra

Jèssica Martorell.

Nairóbi, 20 out (EFE).- Assad nasceu entre barracos de plásticos e paus que se erguem em pleno deserto no norte do Quênia. Cresceu em Dadaab, o maior campo de refugiados do mundo, e, 25 anos depois, o obrigam a voltar para a Somália, um país do qual sua família fugiu por causa de uma guerra que continua hoje em dia.

A seis semanas de se completar o prazo fixado pelo governo para desmantelar o acampamento por "questões de segurança", organizações como Médicos Sem Fronteiras (MSF) se opõem e criticam o programa de repatriações a priori voluntárias que o Quênia e a Agência da ONU para os Refugiados (Acnur) iniciaram.

Segundo uma pesquisa realizada pelo MSF, oito de cada dez refugiados asseguram não querer voltar à Somália. Têm medo da falta de assistência de saúde, da violência sexual e do recrutamento forçado por parte de grupos jihadistas como Al Shabab, ramo da Al Qaeda.

"Enviar outra vez estas pessoas nestas condições é desumano e irresponsável", lamentou à Efe a coordenadora geral do MSF no Quênia, Liesbeth Aelbrecht, lembrando que a Somália não está pronta para acolhê-los porque, atualmente, tem 1,1 milhão de deslocados internos e 900 mil refugiados em países vizinhos.

Como primeiro passo para o fechamento, Quênia e Acnur pretendem reduzir pela metade o acampamento antes do final do ano com repatriações voluntárias, mas várias organizações internacionais já denunciaram que estas devoluções não cumprem a legislação internacional.

Os refugiados denunciaram intimidação por parte das autoridades, o silêncio sobre as alternativas que lhes permitiriam ficar no Quênia e a falta de informação sobre a situação na Somália. Além disso, perderão uma doação em dinheiro de 400 dólares da ONU se não deixar agora o acampamento.

A mãe de Assad chegou a Dadaab em 1991, quando milhares de somalis começaram a fugir rumo ao Quênia, devido ao conflito armado e à crise alimentar que castigavam o sul do país, e lá deu à luz seus três filhos.

"É minha casa. Nasci lá", assegurou Assad quando fala do campo de refugiados, que acolhe mais de 300 mil somalis.

"Os refugiados não podem trabalhar, construir, viajar... Mas pelo menos recebemos educação", explicou o jovem em Nairóbi, onde o MSF organizou uma exposição fotográfica na qual narra como é a vida em Dadaab, onde muitos nasceram e para os quais este assentamento é seu único lar, porque não têm para onde voltar.

Embora todos concordem em que o campo de refugiados não é a melhor solução para uma crise que se prolonga durante décadas, insistem em que pelo menos lá a assistência humanitária está garantida. Do outro lado da fronteira, na Somália, nem existe.

Aelbrecht explicou que uma das maiores preocupações é saber o que vai acontecer após o fechamento com os pacientes crônicos - que terão que interromper seu tratamento -, as mulheres grávidas ou as crianças, que não poderão ser vacinados.

"Dadaab não é um caminho de rosas, mas sim o paraíso comparado com a Somália", assegurou um refugiado em um relatório do MSF, onde muitos explicam que a questão entre ficar no Quênia ou voltar à Somália é como uma dura escolha entre a vida e a morte.

Por isso, reiteram a necessidade de encontrar outras soluções a longo prazo para os habitantes de Dadaab, como sua integração em comunidades quenianas ou sua realocação para áreas mais seguras.

Perante o iminente fechamento, centenas de milhares de refugiados vivem atemorizados pela possibilidade de voltar à Somália, um país devastado pela guerra e onde os jihadistas controlam grandes extensões de território no sul e no centro.

Se finalmente tiverem que voltar para atravessar a fronteira da qual fugiram há décadas, "isso vai representar outra mancha na proteção dos refugiados em nível mundial", adverte o MSF.

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