Trump insiste em argumentos inconsistentes sobre fraude eleitoral nos EUA

Raquel Godos.

Washington, 20 out (EFE).- O candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, segue promovendo a tese de que o sistema eleitoral do país está sendo manipulado, defende haver fraude no registro de eleitores e que a imprensa está a favor de sua adversária, Hillary Clinton, argumentos usados por ele para se negar a confirmar se aceitará o resultado em caso de vitória da rival.

Apesar de Ivanka, filha do empresário, e Mike Pence, companheiro de chapa no pleito, terem assegurado horas antes do debate televisivo de quarta-feira que Trump aceitaria o resultado eleitoral independentemente de quem vencesse, o magnata republicano contradisse ambos ao reiterar hoje que apenas concordará com a decisão das urnas caso seja o vitorioso.

Na última semana, Trump citou várias razões pelas quais considera o sistema eleitoral norte-americano fraudulento e que está sendo manipulado para tornar uma eventual vitória da ex-primeira-dama.

O empresário alega de cerca de 24 milhões de eleitores registrados de forma inexata, citando casos de mudança de domicílio ou até mesmo de pessoas já falecidas nos cadastros.

"Mais de 1,8 milhões de pessoas mortas estão cadastradas como eleitores. Isso é maravilhoso. Mas tenho a sensação de que não vão votar em mim. Das 1,8 milhão de pessoas, todas votarão por outra pessoa", disse Trump em um de seus comícios, sem citar a rival.

O empresário explicou que há pessoas registradas que morreram há 10 anos, citando um estudo do prestigiado Pew Research Center, que, no entanto, não encontrou provas de que alguém tivesse utilizado esses registros para votar em nome dos já falecidos.

Vários relatórios indicam que uma fraude eleitoral envolvendo pessoas já falecidas é inexistente, indicou o site "FactCheck", dedicada à comprovação de dados.

Outro dos argumentos de Trump para explicar que as eleições estão sendo manipuladas é a suspeita de imigrantes ilegais votarem.

Trump cita um artigo de 2014 do jornal "The Washington Post", intitulado "Poderiam os não cidadãos decidirem as eleições de novembro?", obra dos professores da Universidade Old Dominion, da Virgínia, Jesse Richmand e David Earnest, sobre um estudo que acabou provocando bastante polêmica na sociedade norte-americana.

A pesquisa, além de se referir a não cidadãos e não imigrantes ilegais, como diz Trump, utilizou dados de 2008 e 2010 que depois tiveram que ser atualizados por erro na amostra usada.

Na coluna de outubro de 2014, os pesquisadores compartilharam suas conclusões baseadas nos resultados de 339 entrevistados que não eram cidadãos norte-americanos em 2008 e outros 489 em 2010.

Com esses dados, indica nesta quinta-feira o "Washington Post", o estudo indicou que 6,4% dos não cidadãos votaram em 2008, índice que reduziu para 2,2% em 2010. No entanto, a amostra real era menor: só 21 eleitores em 2008 e apenas oito em 2010. A porcentagem teria sido extrapolada de maneira exagerada pelo restante do país.

Além disso, se descobriu posteriormente que todos os casos de não cidadãos que apareciam como eleitores, na realidade, eram pessoas que tinham sido classificadas dessa forma por erro.

Por fim, Trump garante que existe outra fraude eleitoral "muito comum": pessoas que votam em várias oportunidades em diferentes seções eleitorais. Mas as alegações também esbarram em avaliações independentes que analisam os dados do pleito. Relatórios acadêmicos e pesquisas governamentais indicam que esse tipo de fraude é raro.

"Os melhores dados que podem ser reunidos para avaliar a magnitude do suposto problema de fraude eleitoral são os que, apesar de milhões de pessoas votarem todos os anos, quase ninguém com pleno conhecimento promove de forma deliberada uma votação ilegal nos EUA", escreve a especialista Lorene Minnite no livro "O mito da fraude eleitoral".

Dessa forma, Trump usou mitos que circulam sobre possíveis manipulações em pleitos, mas que os analistas concordam em serem falsos, mas, que no entanto, não impedem que o candidato republicano continue se empenhando em afirmar que o sistema é fraudulento.

A própria Procuradora-Geral dos EUA, Loretta Lynchu, classificou nesta quarta-feira como "especulações" as alegações de Trump e reiterou que o sistema eleitoral do país é "seguro".

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