Cuba endurece discurso contra EUA e diminui ritmo de algumas reformas

Sara Gómez Armas.

Havana, 21 out (EFE).- A Cuba do degelo e da abertura política vive um sutil retorno ao passado com uma intensificação do discurso revolucionário, especialmente contra os Estados Unidos, e o bloqueio a algumas reformas econômicas com as quais o governo de Raúl Castro está mudando o panorama da ilha.

Proprietários de restaurantes que não são públicos, o negócio mais bem-sucedido do "cuentapropismo" ("por conta própria", ao pé da letra) - o incipiente setor privado que se abre na ilha desde 2010 - não escondem a preocupação com a suspensão temporária da concessão de licenças para a abertura de novas lojas, uma medida que ainda não foi divulgada oficialmente. Em toda a ilha existem mais 1.700 restaurantes, um negócio particular que se propagou como pólvora nos últimos anos no "boom" do turismo, embora com grandes dificuldades e restrições legais que ameaçam aumentar.

Estes locais enfrentam agora uma onda de severas inspeções para garantir o rígido cumprimento da norma: não ter mais do que 50 lugares, respeitar horários e ser abastecido só de produtos adquiridos em lojas do Estado, cuja oferta é insuficiente e intermitente.

Embora a medida seja temporária, nas ruas muita gente teme que isto signifique o início de um retrocesso nos avanços dos últimos anos, entre eles o "cuentapropismo", que modificou o cenário econômico da ilha e deu lugar a uma pequena classe empreendedora que promete ser o motor do desenvolvimento.

O retorno ao passado também é apreciado no plano mais ideológico e é cada vez mais frequente ver altos funcionários do governo recuperando a velha retórica para arremeter duramente contra os Estados Unidos e suas intenções "intervencionistas" em Cuba, apesar da aproximação diplomática iniciada há quase dois anos.

Analistas políticos ouvidos pela Agência Efe apontam as fortes reservas dos setores mais radicais dentro do Partido Comunista, que veem com receio a nova relação com os Estados Unidos e que estão marcando a pauta ideológica na ilha, onde as estruturas de poder são controladas por esse partido único. Um exemplo desta nova tendência mais beligerante é a campanha "Vespeiro contra o bloqueio", uma mobilização em massa e insólita de milhares de jovens estudantes em todas as universidades do país para pedir o fim do embargo, que foi amplamente repercutida na imprensa da oficial da ilha.

Apesar de o evento ter sido convocado por organizações governistas da sociedade civil, ele contou com a presença da diretora da Direção-Geral dos Estados Unidos no Ministério das Relações Exteriores de Cuba, Josefina Vidal, que fez ontem uma forte alegação contra esse antigo inimigo e centrou seu discurso nas questões pendentes da nova relação.

A iniciativa acontece uma semana antes de Cuba apresentar, como acontece anualmente, sua proposta de resolução contra o bloqueio na Assembleia Nacional da Organização das Nações Unidas (ONU), algo que no passado veio acompanhado de uma campanha propagandística na imprensa - quase toda controlada pelo Estado -, mas que este ano foi muito mais intensa e agressiva. As mensagens conciliadoras e cautelosas dos primeiros meses do degelo do discurso oficial cubano se tingem agora de um tom muito mais duro para os Estados Unidos, apesar de o presidente Barack Obama declarar há poucos dias "irreversível" esse processo e relaxar novas sanções econômicas do embargo.

A reação oficial de Cuba à blindagem do degelo - a medida mais importante da administração Obama em relação à ilha desde 17 de dezembro de 2014, segundo vários analistas - esteve muito longe do otimismo ou da complacência. A própria Josefina, a face amável do processo, já que conduziu as negociações para restabelecer as relações, minimizou seus efeitos ao conhecer a notícia. Segundo ela, a medida não esconde os propósitos dos Estados Unidos de promover mudanças internas na ilha, mas admite que a administração Obama já reconhece o governo cubano como um interlocutor legítimo e igual.

Há poucas semanas, a Chancelaria expressou também seu mal-estar com os Estados Unidos sobre o programa educativo "World Learning", lançado com "fins subversivos" pela embaixada americana na ilha em paralelo aos canais diplomáticos estabelecidos, o que deu pé a outra intensa campanha contra esse país na mídia oficial.

Apesar desta retirada ideológico, Cuba mantém fortes contatos com os Estados Unidos, encaminhados a estreitar a cooperação em áreas como a saúde e o meio ambiente e a estabelecer os fundamentos para uma futura relação comercial sólida perante a eventual suspensão do embargo que a ilha reivindica agora com mais ímpeto e veemência.

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