Para milhares de crianças drogadas na Índia, a "solução" é o problema

Noemí Jabois

Nova Délhi, 2 nov (EFE).- Presos em um espiral de drogas que não deixa de crescer em um país localizado entre as duas principais regiões produtoras de ópio da Ásia, milhares de crianças indianas passam seus dias entre o papel alumínio e os vapores da conhecida "solução" reparadora de rodas.

Jhanvi Jain atravessa um velho corredor recheado de cartazes que advertem sobre os perigos de compartilhar seringas, sobe escadas com paredes lascadas e puxa uma corda suspensa sobre sua cabeça; uma porta de grades se abre perante ela.

A jovem terapeuta entra em um escuro quarto ao fundo do corredor, onde várias crianças estão espalhadas em dez beliches. Só uma parece estar acordada e brinca com uma caderno para colorir.

Jain explica que a criança tem 10 anos e que a febre, habitual entre os menores de idade que lutam para deixar para trás sua dependência neste centro de reabilitação da capital indiana, lhe impediu de ter aulas na manhã em questão.

Em um andar mais acima, 40 companheiros decoram as letras sentados no solo de um quarto.

"Nunca foram à escola, alguns foram, mas esqueceram tudo por causa das drogas", disse à Agência Efe a psicóloga.

Jain aponta orgulhosa a um deles, um brincalhão rapaz de 8 anos que, apesar de estar há apenas um mês no centro, já escreve na velocidade de um raio.

Se vira para passar a borracha a um companheiro e em décimos de segundo volta para o quadro-negro com a avidez de quem não quer perder nem um minuto a mais de sua vida.

Órfão, costumava pedir nas ruas e inalar "solução", um líquido em tubo utilizado para reparar rodas, que se transformou em uma das drogas mais populares entre os jovens por sua fácil acessibilidade e baixo custo, apenas 30 rúpias ou US$ 0,45, segundo Jain.

Cerca de 60% das entre 300 mil e 400 mil crianças drogadas que a ONG Sociedade para a Promoção da Juventude e as Massas (SPYM, em inglês) estima existirem no país, começam sua caminhada inalando esta e outras substâncias similares.

Com o tempo muitos passam à maconha e outros, cerca de 20%, à heroína. Alguns com apenas 5 anos, especificou à Efe Rajesh Kumar, diretor da SPYM, organização que dirige o centro de reabilitação.

"Se alguém me pergunta pela inalação (de 'solução') e a heroína, optaria por permitir a heroína", afirma categórico.

A perigosa substância em tubo, adverte, restringe o crescimento do cérebro e "deixa a criança em estado vegetal para toda a vida".

No entanto, o preço da heroína é infinitamente superior, cerca de 1,5 mil rúpias ou US$ 22 a dose média diária, algo mais de uma grama, estima.

Como consegue uma criança tal quantidade de dinheiro? "De teu bolso e do meu", responde Kumar.

As meninos, procedentes em sua maioria das ruas, começam pedindo dinheiro e mais tarde passam a roubar bolsas ou cometem "outros crimes" para financiar sua dependência.

Segundo o diretor da SPYM, os casos de toxicomania em menores são dezenas de milhares na Índia, com cerca de 20 mil só em Nova Délhi, e o número não deixou de crescer durante as últimas dois ou três décadas.

"Uma das principais razões é que a Índia está situada entre duas zonas produtoras de ópio. Uma se chama o Triângulo Dourado, formado por Laos, Mianmar e Tailândia; e a outra é a Meia Lua Dourada, que são Afeganistão, Paquistão" e Irã, detalhou.

Desde a guerra contra os soviéticos no Afeganistão (1979-1989) e o consequente bloqueio da rota dos Bálcãs, a Índia se transformou em um importante ponto de passagem da droga para o Ocidente.

"Um quinto da população mundial está na Índia, portanto um quinto dos problemas têm que estar também na Índia", conclui com um sorriso resignado.

A mesma resignação o leva a reconhecer que este decrépito edifício na zona velha de Délhi "não é lugar para uma criança".

A sua costas, as janelas gradeadas deixam entrever um grupo de cabras escalando os escombros de uma casa em ruínas.

É "natural", afirma, que os internos queiram escapar e já que estas são crianças da "rua".

No entanto, Roshan Singh, de 14 anos, assegura se sentir "bem" no centro que foi seu lar durante os últimos três meses.

Lembra o dia em que foi recolhido em um mercado, após cerca de um ano inalando "solução" com seus amigos do bairro, uma atividade que custeavam recolhendo plásticos.

Seu companheiro Jatin Thapliyal, três anos mais velho, diz que, de fato, quando se recuperar de seu alcoolismo, estudará hotelaria e voltará ao centro para trabalhar como voluntário.

Mas a realidade é que 30% das meninos, indicou Kumar, acabarão voltando ao centro por razões muito distintas.

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