De Rússia a Cuba, Trump e Hillary se chocam em política externa

Lucía Leal.

Washington, 4 nov (EFE).- Quem substituir Barack Obama na Casa Branca deverá lidar com uma tensão com a Rússia sem precedentes nas últimas décadas, um Oriente Médio envolto em conflitos e a decisão de continuar ou não com o processo de abertura nas relações com Cuba, e estes desafios Hillary Clinton e Donald Trump abordam de maneiras opostas.

A campanha presidencial transtornou os esquemas clássicos da política externa americana, com um candidato republicano, Trump, que oscila entre o isolacionismo e a bravata militar, e uma candidata democrata, Hillary, que, segundo seus assessores, adotaria uma postura mais agressiva que Obama no plano internacional.

"Uma vitória de Trump provocaria uma das maiores comoções na política externa (americana) nas últimas décadas", previu recentemente Thomas Wright, um especialista em estratégia geopolítica do centro de estudos Brookings.

A candidatura de Trump gerou inquietação no mundo, desde uma América Latina indignada por seus comentários sobre os imigrantes a um Oriente Médio preocupado por sua retórica contra os muçulmanos, passando por aliados tradicionais na Ásia Oriental que temem que os EUA os deixem sozinhos ante a pujança da China.

Enquanto isso, a tensão com a Rússia foi crescendo ao calor das diferenças sobre a Síria e a acusação americana contra Moscou de ter realizado ciberataques para influenciar nas eleições.

"Temos uma das relações mais conflituosas com a Rússia dos últimos tempos. O único debate entre os analistas é se está no nível da crise do anos 80 (do começo da Guerra Fria) ou mais no da de 1940", disse Fiona Hill, um especialista em Rússia, em uma conferência organizada pelo Brookings.

Se a próxima presidente for Hillary, que acusou diretamente Moscou de tentar prejudicá-la com seus ciberataques, terá um "primeiro ano muito difícil" em sua relação com a Rússia, segundo Wright.

Por sua parte, Trump elogiou reiteradamente o presidente russo, Vladimir Putin, e mostrou sua vontade de "se dar bem" com ele, com o argumento que a batalha contra o Estado Islâmico (EI) deve ser a prioridade absoluta e Moscou pode contribuir com ela.

O magnata vê a relação com a Rússia como a negociação de um acordo imobiliário, e gostaria de "chegar a um trato muito transacional para que Rússia lute junto a ele contra o EI", mas a questão está em o que os EUA ofereciam em troca, opinou Wright.

A estratégia de Trump contra o EI também está cheia de dúvidas: em março afirmou que seriam necessários 30.000 soldados dos EUA para derrotar o grupo jihadista no Iraque e na Síria, mas não chegou a comprometer-se com essa medida, e só disse que seu plano seria "imprevisível" e envolveria uma forte ofensiva.

Hillary, por sua parte, prometeu continuar com os bombardeios da coalizão liderada pelos EUA e defendeu um maior papel das forças curdas e dos muçulmanos sunitas na luta contra o EI.

Provavelmente a maior diferença na política externa de Obama e a que propõe Hillary seja sua vontade de estabelecer uma área de exclusão aérea na Síria, algo que, em suas próprias palavras, "poderia salvar vidas e acelerar o fim do conflito".

O chefe do Estado-Maior dos EUA, Joseph Dunford, advertiu que essa medida provocaria uma "guerra com a Rússia", mas Hillary alega que negociaria antes com Moscou para evitar que isso aconteça.

Se o maior foco de tensão para Hillary seria a Rússia, o de Trump poderia ser a China, um dos principais alvos de seus ataques e a quem prometeu impor pressão por suas práticas comerciais.

Por sua parte, Hillary pressionaria mais à China na área dos direitos humanos e manteria as alianças com Japão e Coreia do Sul, talvez com uma linha mais dura em relação à Coreia do Norte. Mas é improvável que o "giro à Ásia" de Obama seguisse sendo sua prioridade, dado seu interesse no Oriente Médio.

Nem Trump nem Hillary mencionaram a paz entre israelenses e palestinos como uma prioridade de sua política externa, embora ambos tenham se perfilado como aliados inequívocos de Israel, e fizeram várias promessas a um Benjamin Netanyahu muito distanciado de Obama.

A desigual recuperação econômica da Europa, as consequências do "Brexit", o conflito na Ucrânia e a crise de refugiados serão outros dos desafios para o próximo presidente, que ainda terá que decidir, com toda probabilidade, o que fazer com a prisão de Guantánamo, em Cuba, que Obama não conseguiu fechar.

Enquanto Hillary quer enclausurá-la, Trump prometeu mantê-la aberta e, além disso, sugeriu que voltaria a autorizar as polêmicas práticas de interrogatório usadas pelo governo de George W. Bush, como a asfixia simulada.

O candidato republicano prometeu também cancelar ou renegociar dois grandes acordos da presidência de Obama: o trato nuclear com o Irã e o Acordo de Paris sobre o clima, ambos apoiados por Hillary.

Durante as primárias, Trump foi o único candidato republicano favorável à aproximação com Cuba, mas endureceu sua posição à medida que buscava votos na Flórida, e em um tweet de meados de outubro prometeu "dar marcha à ré nas ordens executivas de Obama sobre Cuba até que se restaurem as liberdades" na ilha.

Mas cumprir essa promessa pode ser "muito difícil" e ter um "alto custo político", dados os múltiplos canais de cooperação que já estão ativos e o crescente interesse das empresas americanas em Cuba, explicou à Agência Efe o analista Geoff Thale, diretor de programas do Escritório de Washington para a América Latina (WOLA). EFE

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