Estimular fertilidade e atendimento a idosos: políticas da Cuba envelhecida

Sara Gómez Armas.

Cienfuegos (Cuba), 4 nov (EFE).- Sob a ameaça de se tornar o nono país mais envelhecido do mundo em 2050 e o primeiro da América Latina, Cuba encara o duplo desafio de estimular a fertilidade e prestar atendimento médico e assistencial aos idosos, que já superam 20% dos 11,1 milhões de habitantes.

A província de Cienfuegos, uma das mais afetadas por este fenômeno, é referência nesta estratégia nacional, já que possui um dos três centros de reprodução assistida do país, além de contar com a rede mais ampla de atendimento a idosos, com 31 centros durante o dia e cinco lares para idosos desemparados.

Com mais de 400 nascimentos desde sua abertura, em 2010, o centro de reprodução assistida de Cienfuegos - aprovado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) - atende anualmente cerca de três mil casais com dificuldades para ter filhos e, desde o final de 2014, oferece de graça técnicas de alta tecnologia como a fertilização in vitro.

Após nove anos testando sem sucesso diferentes tratamentos de fertilidade, "um processo desesperador", Kenia Coba, de 31 anos, conseguiu ficar grávida com a técnica in vitro e seu bebê, Marco Antonio, já repousa com quase dois quilos em uma incubadora do centro após nascer prematuro, mas saudável, no dia 23 de setembro.

"Estava há anos tentando e já pensava que nunca ficaria grávida. Não podia acreditar até fazer o ultrassom das oito semanas", contou emocionada Kenia, que não se separa do bebê.

Em pouco mais de um ano, essa técnica foi aplicada a 173 pacientes do centro, que já viu nascer nove bebês, "um resultado que enche todos aqui de alegria", disse Práxedes Rojas, diretora da instalação, localizada no Hospital Geral Gustavo Aldereguía.

"Estamos dando os primeiros passos como centro. Mas desde o nosso início fomos aumentando o número de nascimentos a cada ano e melhorando a saúde reprodutiva de Cuba, onde até 20% dos casais sofre com a infertilidade", afirmou a médica.

A crise econômica, a emigração e a emancipação da mulher - que atrasa a idade da maternidade - em Cuba são algumas das causas para que os níveis de fertilidade no país se mantenham desde o final dos anos 70 e o país registrou um crescimento demográfico quase nulo nos últimos anos.

O outro lado da moeda deste fenômeno é o precipitado envelhecimento da população, já que os maiores de 60 anos superarão a parcela de 30% até 2030, uma grave perda de população economicamente ativa, que segundo números oficiais cairá para 133 mil pessoas.

"O envelhecimento é uma conquista da Revolução. O resultado do desenvolvimento social que permitiu o sistema de saúde cubano gratuito e universal. Mas implica agora em um desafio muito grande", comentou a diretora do hospital, Marixa Rodríguez.

Segundo Rodríguez, além de incentivar a natalidade, o desafio foi "geriatrizar" desde os níveis de atendimento primário todos os serviços de saúde, algo no qual também é "referência" o hospital provincial de Cienfuegos, onde mais de 50% das internações são de idosos.

Entre as políticas sociais de assistência, Cuba habilitou por todo o país centros nos quais os idosos passam o dia com atendimento especializado enquanto os parentes trabalham, além de residências para abrigar abandonados.

"Aqui sou melhor cuidado. A família não tem que pensar em mim, se ando pela rua. Sabem que estou aqui e não têm nenhuma preocupação", relatou Alfredo, de 94 anos, que fica instalado no centro Punta Gorda, um dos 31 da província nos quais mais de 700 idosos são assistidos.

Por uma quantia simbólica, eles recebem as refeições básicas, atendimento médico e passam o dia acompanhados de pessoas na mesma situação.

"Após desjejuar, fazemos exercícios, se não dói isto ou outra coisa. E todos os dias vem uma enfermeira para medir a pressão antes e depois do exercício", contou Aida, de 82 anos.

Mari Carmen Choviano, de 70 anos, que não tem família para ficar com ela, vendeu a casa e se mudou para a residência Rita Suárez, um dos cinco lares de idosos desemparados em Cienfuegos com 400 vagas, onde se sente "mais segura e acompanhada".

"Cada vez há mais idosos que carecem de família ou uma pessoa que os possa atender. E aqui encontram, no final da vida, o apoio de todo o coletivo. Os vemos como nossos pais ou nossos avós", afirmou a diretora dessa residência, Andri Guerra.

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