Pouco aberta a temperamento instável, Wall Street prefere vitória de Hillary

Agustín de Gracia.

Nova York, 4 nov (EFE).- Se há algo que os investidores de Wall Street não gostam é de um presidente populista ou instável, dono de um temperamento incontrolável, seja ele democrata ou republicano.

Algo apreciado pelo principal mercado mundial, por outro lado, é um presidente democrata e o Congresso com maioria republicana, pois isso equilibraria a disputa de poder em Washington. Tanto a política como os negócios, avalia Wall Street, se beneficiam das vantagens da barganha para governar.

Por esses e outros motivos, o índice Dow Jones passou na sexta-feira da semana passada de uma alta de 0,30% para uma queda de 0,30% em poucos minutos. A forte queda ocorreu depois da divulgação de que a candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, seria alvo de uma nova investigação do FBI sobre o uso de um servidor privado de e-mails para fins profissionais enquanto era secretária de Estado.

"O mercado verdadeiramente gosta dos democratas no Salão Oval (da Casa Branca). É quase uma relação de dois contra um", garante o diretor do banco privado BMO, Jack Ablin.

Desde 1900, lembra Ablin, o Dow Jones tende a se comportar melhor com presidentes democratas, superando os republicanos quanto às possibilidades de rendimento da bolsa. Se os republicanos mantêm o controle do Senado, as expectativas são melhores se comparadas à hipótese de os democratas controlarem o Capitólio.

Tanto Donald Trump, o candidato republicano da vez, como Hillary Clinton são conhecidos dos investidores de Nova York, seja pelo mundo da política, caso da ex-primeira-dama, ou dos negócios, situação do empresário multimilionário. Trump, porém, monopoliza quase todas as críticas de seus companheiros de Wall Street.

Em recente editorial, o "The Wall Street Journal" afirmou que a melhor oportunidade que Trump teria para chegar à presidência era "fazer com que a campanha girasse em direção a algo além do que ele próprio". "Ganhe ou perca, o resultado será o que ele mesmo conseguiu", afirmou o jornal no texto, que critica duramente os comentários do empresário sobre a manipulação do processo eleitoral.

Wall Street também prefere o tom moderado de Hillary e se preocupa com o temperamento de Trump. Além disso, os investidores temem a tendência do adversário de recorrer a propostas populistas para atrair votos, e sabem que o exemplo do "Brexit", a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), é um precedente ruim.

"Com políticas populistas, pode haver uma possibilidade real de voltarmos a taxas de inflação sem crescimento. É um cenário difícil de ignorar", disse o diretor-gerente da MSCI, Remy Briand.

Inclusive, alguns indicadores preveem que, caso Trump saia vitorioso nas eleições da próxima terça-feira, haverá uma queda de até 15% no índice seletivo S&P 500, o preferido dos investidores.

As críticas ao empresário são múltiplas. O magnata britânico Richard Branson, por exemplo, afirma que Trump não é uma pessoa que "gosta de ouvir as demais". "Não é alguém que, acredito, possa se cercar de uma grande equipe de trabalho para dirigir o país", disse.

Hillary, por sua vez, está há 30 anos na política e conhece como poucos os corredores do Congresso. Por isso, para os investidores, aparece ter mais experiência que o rival nesse sentido.

"Alguém tem que trabalhar nos bastidores, ceder e, basicamente, fechar acordos. Acredito que Hillary pode fazer isso", defende o fundador da York Capital Management, Jamie Dinan.

No entanto, caso a democrata chegue à Casa Branca, arrastará consigo uma "enorme nuvem sobre sua cabeça" por causa do escândalo dos e-mails, avaliou o estrategista de mercado Greg Valliere.

"Não é algo bom para o mercado nem para o país. Esse tema pode se arrastar durante meses", completou.

De qualquer forma, Wall Street já sabe que, independentemente do vencedor, o período pós-eleitoral não é exatamente bom para a bolsa. Entre outras razões, quem ocupa a Casa Branca precisa aplicar as medidas mais duras no início de seu mandato.

A história mostra que as crises mais graves da economia do país, como 1929, 1973 e 1981, ocorreram pouco depois de pleitos presidenciais.

A nova era que se abre coincide com uma época em que os EUA não registram os níveis de crescimento desejados, apresentam uma inflação menor do que a inesperada e vivem uma incerteza quanto à iminente alta das taxas de juros no país.

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