Papa apela contra idolatria do dinheiro e diz que estamos perdendo humanidade

Cidade do Vaticano, 5 nov (EFE).- O papa Francisco falou neste sábado contra uma ordem mundial que fez do dinheiro "um ídolo" e que tiraniza os povos e denunciou a perda da humanidade, personificada nos refugiados e em quem os despreza.

Francisco foi taxativo no evento de encerramento do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares ao pedir para os cerca de 5 mil participantes para se a rebelem contra o sistema econômico e ajudem quem mais sofre e menos têm. Suas palavras ecoaram com força na Sala Paulo VI no Vaticano: "Quem governa então? O dinheiro. Como governa? Com o chicote do medo, da desigualdade, da violência econômica, social, cultural e militar que gera sempre mais violência em uma espiral descendente que parece não acabar nunca".

Para o pontífice, "existe um terrorismo de base que deriva do controle global do dinheiro sobre a terra e ameaça toda a humanidade".

Nesse momento ele exclamou que "nenhum povo, nenhuma religião é terrorista", embora, ao mesmo tempo, tenha reconhecido que existam "pequenos grupos fundamentalistas de todas as partes". Seja como for, "toda a doutrina social da Igreja e o magistério de meus predecessores se rebela contra o ídolo do dinheiro que reina ao invés de servir, tiraniza e aterroriza a humanidade".

O papa voltou a denunciar uma situação que gera profunda preocupação: "a vergonha" e o drama que vivem milhares de pessoas que se veem obrigadas a abandonar suas terras por causa dos conflitos.

"O que acontece no mundo de hoje que, quando ocorre a quebra de um banco, imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo, mas quando acontece esta quebra na humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto?", questionou ele, parafraseando o arcebispo Hieronymus da Grécia.

Segundo o papa, "o mal é duplo quando, diante daquelas terríveis circunstâncias, o migrante se vê lançado nas garras dos traficantes de pessoas para atravessar as fronteiras, e é triplo se chegam na terra em que pensava encontrar um futuro melhor e é desprezado, explorado e até mesmo escravizado".

Durante seu aplaudido e longo discurso ele se referiu à corrupção, que "não é um vício exclusivo da política", mas uma praga presente também nas empresas, nos meios de comunicação, nas organizações sociais, nos movimentos populares e nas igrejas.

O papa pediu para quem é apegado a bens materiais ou ao espelho, ama o dinheiro, banquetes exuberantes, mansões, roupas caras e carros de luxos para que pense, entenda o que está acontecendo e reze para se libertar desses aprisionamentos.

"Mas, parafraseando o ex-presidente latino-americano que se encontra aqui (José Mujica), aquele que está afeiçoado a todas estas coisas, por favor, que não entre na política, que não entre em uma organização social ou em um movimento popular, porque causaria muito dano a si mesmo e ao próximo e mancharia a nobre causa que assumiu. Tampouco que entre no seminário", apelou o pontífice.

E recomendou que o melhor remédio nesses casos é a austeridade.

"Diante da tentação da corrupção, não existe melhor remédio do que a austeridade, esta austeridade moral e pessoal. E praticar a austeridade é, também, pregar com o exemplo. Vos peço de não subestimarem o valor do exemplo, porque tem mais força do que mil palavras, do que mil panfletos, do que mil "curtidas", do que mil retweets, do que mil vídeos no Youtube", enumerou Francisco.

O papa chamou os participantes dos Movimentos Populares a contribuir para que o mundo se cure "de sua atrofia moral".

"Quantas mãos atrofiadas, quantas pessoas privadas da dignidade do trabalho! Porque os hipócritas, para defender sistemas injustos, se opõem a que sejam curados. Às vezes penso que quando vocês, os pobres organizados, inventam os vossos trabalhos, criando uma cooperativa, recuperando uma fábrica falida, reciclando os descartes da sociedade de consumo, enfrentando a inclemência do tempo para vender em uma praça, reivindicando um pedaço de terra para cultivar para alimentar quem tem fome, quando vocês fazem isto estão imitando Jesus, porque buscam curar, mesmo que somente um pouquinho, mesmo se precariamente, esta atrofia do sistema socioeconômico reinante que é o desemprego", advertiu.

Para depois apontar que esse sistema impede "o desenvolvimento do ser humano em sua integridade", uma evolução que não se limita ao mero consumo nem ao bem-estar de alguns poucos, mas "inclui todos os povos e pessoas na plenitude de sua dignidade".

Neste terceiro encontro dos Movimentos Populares participaram organizações de países de todo o mundo, como Brasil, Argentina, México, Cuba e Venezuela.

Ao término seu discurso, o papa cumprimentou alguns participantes, entre eles o próprio Mujica e a sua esposa, Lucía Topolansky.

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