A defesa da fé muçulmana em tempos de Donald Trump

Raquel Godos.

Washington, 6 nov (EFE).- "Islamic Way", diz o cartaz da rua em frente à Mesquita Nacional de Washington, um pequeno centro de culto muçulmano com mais de 80 anos de história, onde os fiéis deixaram de comparecer apenas para rezar. Agora eles precisam defender sua fé em tempos de Donald Trump.

Esta foi a primeira mesquita construída na capital americana, com as próprias mãos dos membros da comunidade, e embora não fosse tão inclusiva no início, agora se tornou um exemplo de integração e irmandade na região. Ali rezaram Malcolm X e Muhammad Ali.

O imã Talib Shareef está há anos à frente desta mesquita, e em meio aos últimos acontecimentos da disputa eleitoral está convencido de que é fundamental conscientizar a comunidade sobre a importância do voto e criar laços com outros setores da sociedade.

"Já tínhamos a islamofobia, ela já estava aqui antes", afirmou, ao ressaltar que a situação se agravou seriamente durante a campanha eleitoral.

As propostas do candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, que pretende proibir que muçulmanos entrem no país, teve todos os tipos de consequências.

"Quando você escuta um candidato importante ou uma pessoa influente dizer essas coisas, você espera que aqueles que defendem nossa Constituição elevem a voz. Por isso estão acontecendo muitas coisas no país agora, porque muitos grandes líderes não falaram e esse silêncio é cúmplice", considerou Shareef.

"Agora estão tentando (se impor) porque veem as consequências, mas quando não se fala a tempo as coisas acontecem", disse em referência a casos de pessoas que praticam o Islã nos EUA e que por isso sofreram ataques, esfaqueamentos ou humilhações dos que fizeram do ódio seu orgulho.

Poucos minutos antes da chegada de dois fiéis à oração da tarde, Shareef deixa tudo pronto, mas vai buscar algo. Ele retorna com um grande quadro nas mãos: suas condecorações da época como militar.

Veterano da Força Aérea dos EUA durante 30 anos, Shareef é um dos muçulmanos que mais tempo serviram ao país e diz que as pessoas que agora o pedem para "ir embora" e afirmam que ele "não é bem-vindo", ou que deve fazer "um teste religioso" para comprovar se é perigoso ou não, jamais se sacrificaram em nada pela nação que acreditam defender.

"E não é um, são muitos os muçulmanos que serviram ao país. Lutamos em todas as guerras, não houve uma guerra dos Estados Unidos na qual um muçulmano não tenha lutado", enfatizou como exemplo do desconhecimento de muitos sobre o papel de sua comunidade como parte da nação.

Shareef é americano de nascimento, mas muitos dos fiéis são de outras muitas partes do mundo, Washington, estados vizinhos, Maryland e Virgínia, que contam com uma população muçulmana significativa, tanto nativa como imigrante.

Preocupado com o ocorrido nos últimos meses, o imã organizou eventos para incentivar o registro de eleitores e ao final de suas orações pede aos presentes que participem deste ciclo eleitoral.

Shabbir Chaudhary é de origem paquistanesa, vive nos EUA há 35 anos e também considera o país seu lar. "Muito foi falado sobre os muçulmanos, o problema é que essas pessoas não escutam, não entendem, não sabem que tipo de gente são", afirmou sobre as críticas vazias.

"Os muçulmanos são muito pacíficos, é preciso conhecê-los, ler sobre eles. E nosso imã aqui está organizando eventos, comparecendo a encontros e conversas para que as pessoas saibam o que é o Islã", explicou Chaudhary ao sair da mesquita, orgulhoso por seu templo contribuir para estreitar esses laços.

Ibrahim Mumin, original do estado da Geórgia, nunca pensou que Trump fosse ser o candidato republicano. "Para ser honesto, no início não prestei muita atenção na vitória do empresário nas primárias e em sua linguagem agressiva contra as minorias". Ao perceber o tom do discurso, reagiu.

"Desde então, tentei responder a isto, muitos amigos estão me perguntando muitas coisas. Mas acredito que a questão mais importante agora é nos organizarmos e trabalharmos para expandir a coalizão das pessoas progressistas", considerou.

Mumin defende a união de "muçulmanos, cristãos, judeus, hindus, negros, hispânicos, latinos, asiáticos e brancos", o mosaico de cores e raízes que formam o país, com um mesmo fim: "rejeitar a profecia da estupidez de Trump".

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