Subsídio ao arroz provoca tensões entre ex-premiê e junta tailandesa

Gaspar Ruiz-Canela.

Bangcoc, 7 nov (EFE).- O recente plano de subsídios ao arroz aprovado na Tailândia confrontou a junta militar que governa o país com a ex-primeira-ministra Yingluck Shinawatra, julgada por uma ajuda similar que terminou causando perdas milionárias.

Com a queda dos preços do grão, as autoridades anunciaram recentemente um pacote de empréstimos e ajudas avaliado em 127 bilhões de bats (US$ 3,63 bilhões) para o setor.

A Tailândia foi no ano passado o segundo maior exportador de arroz no mundo, depois da Índia, mas a maioria dos agricultores sofre com um endividamento crescente devido à alta dos custos e à estagnação ou depressão do valor do cereal.

O novo programa prevê que cerca de dois milhões de agricultores recebam empréstimos que, após vender sua produção, deverão devolver em um prazo de cinco meses.

As empresas que plantam arroz também receberão subvenções para poder armazenar as colheitas e vendê-las ou exportá-las quando se revalorizarem.

O primeiro-ministro e chefe da junta militar, o general Prayut Chan-ocha, se limitou a ressaltar que seu plano é diferente ao de Yingluck porque cumpre a lei.

As perdas e supostas irregularidades no programa de subsídios ao arroz de Yingluck foram uma das razões defendidas por Prayut para tomar o poder em um golpe de Estado em maio de 2014.

A ex-primeira-ministra pode ser condenada a até dez anos de prisão por negligência em relação às perdas e supostos casos de corrupção em seu programa, caso pelo qual está sendo julgada na Corte Suprema.

"Não vou entrar em detalhes, mas se considerarmos bem este programa, não é diferente do plano de garantia do arroz (durante seu governo)", afirmou Yingluck aos jornalistas, antes de entrar em uma audiência do Supremo, em Bangcoc.

O governo atual também exige de Yingluck o pagamento de uma multa de 35 bilhões de bats (US$ 1 bilhão), 20% dos prejuízos acumulados pelos subsídios ao grão durante seu mandato (2011-2014).

O programa de Prayut inclui um número menor de agricultores que o de Yingluck e, no caso atual, o governo não se encarrega de armazenar o cereal, o que sim fez o Executivo da antiga primeira-ministra.

No entanto, em ambos os programas o risco de acumular perdas é parecido, devido à volatilidade dos preços no mercado internacional, segundo os especialistas.

Segundo o analista político Kan Yuenyong, o programa de subsídios do governo atual é "limitado" comparado ao de Yingluck, enquanto os dois procuram "esfriar a tensão política" com os agricultores do arroz.

"Em todo caso, o programa do arroz está sendo utilizado como uma arma política contra Yingluck", escreveu em um e-mail à Agência Efe Kan, analista da Siyam Intelligence.

Yingluck foi deposta após uma polêmica sentença do Tribunal Constitucional do país, acusada de abuso de poder por influenciar na substituição de um funcionário de alto escalão, poucos dias antes do levante de Prayut.

Em janeiro do ano seguinte foi inabilitada durante cinco anos por "negligência" no plano de subsídios ao arroz e pouco meses mais tarde começou seu processo no Supremo por este mesmo caso.

Yingluck chegou ao governo após ganhar com maioria absoluta as eleições de 2011 à frente de um dos partidos criados por seu irmão e ex-primeiro-ministro, Thaksin Shinawatra, deposto no golpe anterior de 2006 e autoexilado desde 2008 em Dubai, onde evita uma condenação de dois anos por abuso de poder.

As plataformas políticas ligadas a Thaksin ganharam todos os pleitos na Tailândia desde 2001 graças ao apoio da classe rural e apesar da oposição de grande parte da classe média e das elites próximas à monarquia e ao exército.

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