Desertor descarta unificação automática após colapso de regime norte-coreano

Alfonso Bauluz.

Alcalá de Henares (Espanha), 8 nov (EFE).- O colapso do regime da Coreia do Norte não significaria uma reunificação automática com a Coreia do Sul, afirmou nesta terça-feira o desertor Lee Gie-myung, que explica que há pessoas dentro do regime capazes de assumir o poder no lugar de Kim Jong-un.

O dissidente, de 63 anos, e presidente do Centro PEN de Escritores Norte-Coreanos no Exílio, afirmou em entrevista à Agência Efe que essa eventualidade representaria apenas o início de um caminho.

Desse modo, Gie-myung acredita que seja procedente o temor em Seul quanto a uma possível onda incontrolada de refugiados norte-coreanos caso ocorra um abrupto desmoronamento do último regime stalinista da Ásia. Para ele, entre 20% e 30% da população do país é contrária a Kim Jong-un.

"Para que uma revolução tenha sucesso, no entanto, é preciso conseguir entre 50% e 60% da população", explica o desertor.

O escritor, que fugiu em 2000, participou de um fórum sobre direitos humanos no país organizado pelo Centro de Excelência sobre Integração Regional da Universidade de Alcalá, na Espanha.

Como qualquer outro jovem, Gie-myung concluiu seus estudos no ensino médio, mas depois foi obrigado a realizar um serviço militar de 9 anos e 7 meses trabalhando em uma mina.

"Graças a uma boa amizade com o secretário do partido, fui estudar Geologia na universidade. Retornei, claro, como engenheiro. No entanto, minha esperança era escrever e frequentei as aulas noturnas da faculdade de Letras", disse o desertor à Efe.

Depois, Gie-myung se transformou em escritor em "tempo parcial", função em que era ocasionalmente pedido a escrever. "Quando viajei à China como escritor oficial e conheci o mundo exterior, decidi desertar", lembra.

Gie-myung teve que deixar para trás a família e também um mundo repleto de membros do serviço secreto do regime. No entanto, segundo ele, todos sabem que estão sendo espionados no país.

Durante seu discurso no fórum, Gie-myung disse aos estudantes que a China, apesar de parecer de acordo com as sanções contra a Coreia do Norte, não deixará de importar produtos do regime de Kim.

"A China não pode renunciar a Coreia do Norte como aliado", alertou o incidente, para quem o atual distanciamento diplomático não afetará os negócios entre os dois países.

Em vez de cooperação, o regime de Pyongyang deveria sofrer "mais restrições", defendeu Gie-myung, além de ter pedido que os universitários espanhóis coletem assinaturas para levar Kim Jong-Un a ser julgado no Tribunal Penal Internacional.

"Não é um país comunista, é um país de idiotas. Lá só vivem (bem) os adeptos do poder, com um alto nível de vida, já que se servem do povo para viver muito bem", afirmou.

Embora defenda o isolamento internacional para debilitar o regime de Pyongyang, Gie-myung reconhece que uma maior abertura externa representaria mais informações para os norte-coreanos.

As execuções de funcionários do alto escalão do governo não são suficientes para fazer com que Kim Jong-un balance no poder, avaliou o escritor, que afirmou que elas não têm nenhuma relação com a aliança com a China.

"Se todos os países cortassem suas relações e não o regime não tivesse ligação nem com a China, ele cairia. Para evitar dissidências na cúpula do poder, os Kim são muito fiéis aos seus aliados e não poupam dinheiro para mantê-los", completou.

No entanto, os demais cidadãos se mantêm em uma completa ignorância em relação ao mundo exterior, salvo se possuem parentes fora da Coreia do Norte, explicou o escrito.

Sobre a lenta abertura aos intercâmbios comerciais e a incipiente indústria turística, Gie-myung alerta que as medidas não representam uma abertura política. "É a necessidade de dividas", conclui.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos