Americanos no México imaginam futuro negro após vitória de Trump

Martí Quintana.

Cidade do México, 9 nov (EFE).- Com Donald Trump como presidente eleito dos Estados Unidos, a comunidade americana no México passou a imaginar um futuro negro e cheio de incertezas durante uma noite eleitoral acumulada de desânimo, pelo menos desse lado da fronteira.

"Estou muito surpreendida, não posso acreditar. Não posso imaginar um mundo com um presidente do país mais poderoso do mundo como Donald Trump", disse à Agência Efe Frances Newall, uma americana que mora no México há 45 anos.

O assombro, somado a uma evidente consternação, era o denominador comum das 200 pessoas reunidas em um evento da American Society na Cidade do México, organizado por republicanos e democratas no país vizinho.

A noite começou tranquila em uma sala do luxuoso University Club of México, mas a tensão aumentou quando os resultados eleitorais começaram a apontar para a vitória do magnata nova-iorquino sobre a candidata democrata, Hillary Clinton.

"No fim das contas, juntamos os norte-americanos de todas as ideologias para celebrar a democracia e nos unir com quem ganhar a 45ª presidência dos Estados Unidos", disse no início do ato o líder do Partido Republicano no México, Larry Rubin, aos veículos de imprensa.

Mas Rubin, que recentemente anunciou que não votaria em Trump porque sua gestão prejudicaria a relação bilateral entre México e EUA, e boa parte dos presentes foram deixando o salão à medida que avançava a noite, em um desânimo difícil de esconder.

Para muitos dos presentes neste ato, a maioria pessoas de negócios e com família em ambos os lados do Rio Bravo, a vitória de Trump, um ferrenho opositor do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (NAFTA), significará um prejuízo antes e depois na relação comercial.

"Em vez de construir pontes entre nossas nações, vai crescer uma barreira que vai afetar muito. O peso mexicano já desabou e os produtos que podemos trazer dos Estados Unidos serão muito mais caros", lamentou Federico, empresário mexicano e sócio do University Club.

Mas a preocupação vai além da compra, da venda e da desvalorização do peso, que caiu para um mínimo histórico de mais de 20 unidades por dólar.

A esposa de Federico é americana, motivo pelo qual o comerciante, que importa e distribui artigos dos Estados Unidos e da Europa, teme que cresça a animosidade em relação a ela e aos cerca de um milhão de americanos que estão no México.

"Antes dos anos 70, havia uma discriminação muito grande e um separatismo entre a colônia americana e os mexicanos, mas isso foi se rompendo e agora vai voltar novamente. Porque o mexicano tem que reagir ao ataque que estão nos fazendo", relatou.

O medo cresce em ambos os lados da fronteira, que Trump quer fortalecer com um grande muro de ponta a ponta para evitar a chegada de imigrantes ilegais e que, segundo lembrou em várias ocasiões, será pago pelo México.

Presente neste evento, a mexicana Nené Gardoqui lembrou que nenhum latino "quer este senhor" e se mostrou um tanto pesarosa ao pensar nas possíveis dificuldades do filho, um médico mexicano-americano que vive na Flórida, um dos estados-chave que perdidos por Hillary Clinton.

Durante a apuração das eleições, consideradas "cardíacas" pelo tesoureiro da organização Democrats Abroad no México, Mark Alexander, eram escutados gritos de alívio e ânimo quando Hillary vencia em algum estado.

Também houve quem preferiu fazer uma leitura mais calma do evento, como Mark Mayer, de 21 anos, natural de Chicago. Trabalhando para a American Society, o jovem disse estar "surpreendido" com os resultados que mostram que as pesquisas foram "completamente errôneas" e acusou Trump de ter criado "muita tensão entre ambas as nações" e prometer uma "solução drástica" na política migratória.

"Eu me sinto mais seguro no México do que no local de onde vim, o sul de Chicago", disse Mark, favorável a romper estereótipos sobre o país latino-americano e que votou pela candidata Jill Stein, do Partido Verde.

À beira das lágrimas, Susan Daniel acusou Trump de querer "explorar" o sistema e disse que o novo presidente americano "não é político", mas "um negociante e um personagem".

"Seus comentários (em relação às mulheres) me soam ofensivos e violentos, esta linguagem não deveria existir em 2016", concluiu a americana, que mora no México há 37 anos e que se definiu como "mulher, esposa, mãe e sacerdotisa anglicana" com bisavós que votam.

Apesar da rejeição ao candidato republicano, mensagens como a de Susan não parecem ter chegado com força à terra de origem, onde o magnata imobiliário foi eleito presidente dos Estados Unidos.

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