Os órfãos da guerra contra as drogas de Rodrigo Duterte nas Filipinas

Helen Cook.

Manila, 10 nov (EFE).- Milhares de famílias foram destruídas pela violenta campanha antidrogas iniciada nas Filipinas há quatro meses, que levou ao assassinato de pais e mães que vendiam pequenas quantidades de droga para sustentar seus filhos.

"Vivian tinha oito filhos e começou a traficar este ano por falta de dinheiro para mantê-los", contou à Agência Efe Fe Peregrino, uma professora que foi forçada a assumir a guarda de três dos filhos de um casal morto a tiros em sua casa nos arredores de Manila.

Vivian Garfil, de 43 anos, ganhava a vida como manicure de suas vizinhas de Caloocan, uma das 16 cidades que formam a Área Metropolitana de Manila, enquanto seu marido, Adrian Peregrino, de 33, ganhava dinheiro com sua modesta bicitáxi.

Juntos tiveram oito filhos e levavam uma vida humilde na suja e caótica capital filipina, onde centenas de milhares de pessoas sobrevivem em precárias condições.

No mês passado de agosto, o casal se uniu às mais de 3.000 pessoas que morreram nas Filipinas pelas mãos de grupos de cidadãos que fazem justiça com as próprias mãos na radical guerra contra as drogas impulsionada pelo presidente do país, Rodrigo Duterte.

Há cerca de um ano, Vivian encontrou na venda em pequena escala de shabu, uma potente metanfetamina muito popular nas Filipinas, um alívio para a difícil situação econômica na qual se encontrava o casal, mas também fez com que Adrian começasse a consumir.

"Ele consumia um pouco, ela vendia, mas pouco depois que Duterte iniciou sua campanha contra as drogas, decidiram se entregar às autoridades, como tinha pedido o presidente", explicou Fe Peregrino enquanto vigia duas das filhas do casal, Andrea, de cinco anos, e Lady Love, de 11.

"Além disso, como sabiam que estavam na lista de suspeitos das autoridades de seu barangay (bairro), tinham chegado à conclusão que o melhor era voltar para a província para escapar de possíveis pistoleiros", acrescentou.

A morte da primogênita do casal, de 15 anos, por causa da raiva contraída pela mordida de um cachorro de rua, precipitou a fuga de Vivian e Adrian, mais decididos que nunca a proteger seus filhos.

Com a residência já vendida e tudo pronto para partir de Manila, na noite do dia 25 de agosto, cinco homens armados e mascarados se apresentaram na casa da família, na qual dormia o casal junto com seus sete filhos, o menor com um ano, o maior, 13.

"A mãe acordou ao ouvir barulho e se levantou rapidamente para mostrar o documento que já tinham se entregado à polícia, mas não tiveram piedade", afirmou Fe, que escutou a história em várias ocasiões de boca de Lady Love, testemunha do fato.

"Adrian recebeu um tiro na têmpora quando estava deitado na cama com o filho de um ano dormindo em seu peito. Vivian se ajoelhou, desesperada, suplicando que a deixassem viver por seus filhos", relatou.

"Eu sou Duterte, portanto te mato", disse um dos assassinos pouco antes de matá-la a tiros na frente das sete crianças.

Desde então, três dos filhos de Vivian e Adrian moram com Fe, que se unem aos cinco que ela já tem, enquanto as outras quatro crianças vivem com outros parentes.

"Tive muitos problemas, sobretudo com Lady Love, que praticamente não dorme e não se adapta ao novo colégio para o qual tivemos que transferi-la. Seus estudos vão muito mal", lamentou a professora filipina.

"A família em geral ficou destroçada. Adrian era meu sobrinho, era um bom homem que se viu afligido pelas circunstâncias da vida, nada mais. Não merecia morrer assim", opinou.

Apesar do brutal assassinato do casal, Fe diz não ser contra a guerra contra as drogas de Duterte, que desde o dia 1º de julho deixou no total 1.790 mortos em operações policiais e 3.001 nas mãos de "justiceiros".

"Duterte é bom, mas são aqueles que dizem que lhe seguem os que não estão fazendo bem seu trabalho. Não deveriam matar ninguém", concluiu a professora.

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