Partido Democrata começa a digerir inesperada e dolorosa derrota para Trump

Raquel Godos.

Washington, 10 nov (EFE).- O desastre eleitoral que os democratas sofreram na terça-feira com a derrota de sua candidata presidencial, Hillary Clinton, mergulhou o partido em uma obscura incerteza e na necessidade de identificar erros e reconstruir sua essência sobre os escombros de um estrepitoso fracasso.

Trata-se da primeira vez desde 1928 que os republicanos contam com o controle das duas câmaras do Congresso, a presidência, com uma maioria conservadora na Corte Suprema e a maioria das legislaturas e governos estaduais.

Com este panorama, para os democratas a mudança de direção não é uma opção, é questão de sobrevivência.

"O Partido Democrata não pode continuar com a estratégia de esperar que o Partido Republicano se destrua", declarou à Agência Efe José Parra, ex-assessor do líder da minoria democrata no Senado, Harry Reid, e especialista em comunicações políticas.

Segundo Parra, os democratas continuam sem ser capazes de mobilizar seu eleitorado natural, as minorias como a latina e a afro-americana, e continuam apostando em uma estrutura de partido liderada por brancos, incapazes de criar empatia, e portanto, chegar a esses eleitores tão necessários para eles.

"O famoso gigante adormecido segue dormindo", disse o especialista em relação à comunidade latina, já que dos 27 milhões de eleitores hispânicos aptos a votar neste ciclo eleitoral, apenas 13 milhões foram às urnas, exatamente a mesma porcentagem de participação de 2012 (48%).

Hillary partia "com falhas" conhecidas para os democratas, vista como uma mulher fria e pouco próxima, além de pouco confiável, mas o partido não soube suprir essas carências com um esforço suficiente para chegar a seus eleitores mais necessários.

"Espero que agora o partido opte por uma estratégia similar à dos anos 60, quando se debatiam os direitos civis, e busque, através dos veículos de comunicações, mostrar as condições e as histórias de vida das minorias para protegê-las e se aproximar delas", acrescentou.

Um dos possíveis rostos para liderar essa renovação é a senadora democrata por Massachusetts, a progressista Elizabeth Warren, a quem muitos apoiaram para apresentar-se como candidata presidencial democrata antes do ciclo eleitoral.

Precisamente hoje, Warren alertou que é "necessário escutar a mensagem alta e clara de que os americanos querem uma mudança em Washington".

Segundo sua opinião, "o primeiro trabalho dos democratas nesta nova era" deverá ser prostar-se perante "a intolerância e o racismo" que o já presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, incentivou durante toda sua campanha.

"Como uma oposição leal, lutaremos mais duro, lutaremos mais forte e lutaremos mais apaixonadamente do que nunca", garantiu a democrata, que fez campanha para Hillary Clinton desde que esta garantiu a candidatura de seu partido para a Casa Branca, mas que se absteve disso durante as primárias, nas quais a ex-secretária de Estado enfrentou o senador Bernie Sanders.

De acordo com Parra, os democratas não falharam na elaboração de suas propostas políticas, muito mais progressistas com a irrupção de Sanders no panorama político, mas na maneira de enviar sua mensagem.

Trump precisava revolucionar o voto branco operário para conseguir sua vitória, algo que alcançou amplamente, arrebatando inclusive eleitores desse setor da própria Hillary.

"A crescente maioria demográfica ainda não está por aqui", comentou a estrategista democrata e ex-diretora de comunicações da Casa Branca, Anita Dunn, ao jornal "The New York Times".

"A ideia de que se pode chegar a uma campanha presidencial, pressionar um botão e fazer com que as pessoas saiam para votar, não é possível ainda", considerou, em relação à crescente presença demográfica das minorias que deveriam ser favoráveis aos democratas.

Apesar de Hillary e os comitês de ação política favoráveis a ela terem arrecadado grandíssimas quantias de dinheiro e terem contado com sofisticados sistemas de análise do eleitorado, sua campanha esteve mais centrada em uma rejeição a Trump do que em explicar sua visão positiva para o país, algo que para Dunn representou outro de seus grandes erros.

Tanto é que inclusive o lema de campanha de Hillary dos últimos dias de campanha - "Love trumps hate" ("O amor triunfa sobre o ódio") - era um trocadilho com o nome de seu oponente, afastando-se assim de uma imagem inspiradora própria.

Por outra parte, os democratas quase não conseguiram reduzir a maioria que os conservadores ostentam no Congresso, algo sobre o que também necessitam refletir no Legislativo, onde suas maiores vitórias vieram pelas mãos de seus candidatos inter-raciais.

Sua renovação passa, portanto, por abraçar definitivamente as comunidades minoritárias, eleitores do qual descuidaram ao dar como certa sua fidelidade.

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