Legado de Obama corre perigo nas mãos de Trump

Lucía Leal.

Washington, 12 nov (EFE).- A eleição de Donald Trump representou um duro revés para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que pode ver seu sucessor desmontar as pedras angulares de seu legado, como a reforma da saúde, a abertura com Cuba, o acordo nuclear com o Irã ou as regulações contra a mudança climática.

O presidente eleito prometeu dar marcha à ré a todas essas medidas ao longo de sua campanha, mas, segundo os especialistas consultados pela Agência Efe, cumprir essas promessas não é tão fácil como parece e requereria um capital político que Trump pode preferir dedicar a desenvolver seu próprio programa de governo.

"Trump será capaz de desmantelar algumas conquistas da administração de Obama no curto prazo, mas muitas outras levarão bastante tempo ou representarão grandes dificuldades", disse à Efe Charles Tiefer, especialista no funcionamento do Congresso dos EUA e que durante uma década foi vice-advogado geral da Câmara dos Representantes.

"Um presidente dos Estados Unidos não pode simplesmente estalar os dedos e cancelar regulações assim", acrescentou Tiefer, que agora é professor de Direito na Universidade de Baltimore.

Durante quase toda sua presidência, Obama enfrentou um Congresso parcial ou totalmente controlado pela oposição republicana, o que lhe levou a impulsionar muitas de suas prioridades por meio de ações executivas ou decretos, que nunca passaram pelo Congresso e estão, portanto, completamente à mercê da vontade de seu sucessor.

Isso transforma em especialmente vulneráveis suas medidas contra a mudança climática e seu alívio da deportação para mais de 800.000 jovens imigrantes ilegais, conhecidos como "sonhadores", por meio do programa de Ação Diferida para os Chegados na Infância (Daca).

"O fato de essas iniciativas emblemáticas de Obama terem sido impulsionadas por decreto faz com que seja mais fácil para Trump aboli-las", afirmou à Efe Matthew Dallek, historiador e analista político na Universidade de George Washington da capital americana.

Por outro lado, Trump não encontrará facilidade para retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre a mudança climática, dado que este contém uma cláusula que lhe obrigaria a esperar quatro anos antes que a desvinculação entrasse em vigor.

O restabelecimento de relações com Cuba e o relaxamento de sanções à ilha também se baseou no poder executivo de Obama, e Trump prometeu durante sua campanha "dar marcha à ré" a essas medidas "até que se restaurem as liberdades" na ilha.

"Pelo menos, o processo de normalização de relações com Cuba se congelará, e é possível que volte atrás, como prometeu à comunidade do exílio cubano em Miami", declarou à Efe Ted Piccone, especialista em política externa no centro de estudos Brookings.

Em relação ao acordo nuclear com o Irã, considerado o outro grande avanço da política externa de Obama, Trump também prometeu desmantelá-lo ou renegociá-lo, mas terá que levar em conta que há outros cinco países que fazem parte do pacto.

Em qualquer caso, vários analistas consideram possível que o Irã, que já se demonstra descontente com o pouco efeito que o acordo está tendo no investimento estrangeiro em seu país, aproveite a hostilidade de Trump para se retirar do pacto.

Na Casa Branca de Obama, a principal preocupação está em que Trump apague do mapa a grande peça do legado do atual presidente em nível nacional: a reforma da saúde que aprovou em 2010 e que deu cobertura a cerca de 20 milhões de pessoas.

O presidente eleito contará com o respaldo de um Congresso controlado pelos republicanos, que nos últimos anos tentaram dezenas de vezes revogar a lei conhecida como "Obamacare".

Em entrevista publicada nesta sexta-feira no "Wall Street Journal", Trump disse que se inclina por manter as duas partes mais populares do "Obamacare": a provisão que obriga a assegurar pessoas com doenças preexistentes e a estender a cobertura sanitária de um adulto a seus filhos até os 26 anos.

Não é provável, portanto, que o presidente eleito busque derrubar a lei sem mais nem menos, mas quererá negociar uma legislação que a substitua, algo que levará bastante tempo, explicou Tiefer.

Embora seja possível que Trump "passe as primeiras semanas de sua presidência tentando apagar os últimos oito anos de Obama", o novo presidente "sempre estará mais preocupado com sua própria imagem e seu próprio legado", opinou à Efe Aaron Kall, especialista em ciências políticas na Universidade de Michigan.

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