Americanos convivem com o luto pela vitória de Donald Trump

Cristina García Casado.

Washington, 14 nov (EFE).- Lauren e Caroline não entram no Facebook desde que Donald Trump venceu as eleições presidenciais. Como milhões de americanos estão de luto e falam em tragédia, da perda de um ente querido: o país no qual acreditavam.

"Pensávamos que nossa sociedade estava cada vez mais aberta e tolerante. Mas estas eleições nos mostraram um Estados Unidos xenófobo e sexista que muitos não reconhecemos como nosso", comentou Lauren, de 31 anos, enquanto se preparava para fazer uma trilha com um grupo de amigas que também precisam "esquecer".

Estas jovens não irão aos protestos contra Trump nem expressarão sua rejeição nas redes sociais, já que não querem "reviver a experiência dramática", mas passar o luto e recuperar-se o mais rápido possível para seguir lutando pelos direitos que agora veem em sério perigo.

"Algo morreu psicologicamente com estas eleições. Uma versão dos Estados Unidos que era verdadeiramente democrática, onde se procura a igualdade e o multiculturalismo. Esse ideal foi destroçado. Nossas aspirações morreram com estas eleições", teorizou a psicoterapeuta Silvia Dutchevic.

Os pacientes que foram nos últimos dias a sua clínica de Nova York viveram a vitória de Trump "como uma tragédia", principalmente os que se sentem diretamente ameaçados por sua presidência: "os negros, as mulheres, os homossexuais, os ativistas, as vítimas de abuso sexual", enumerou Dutchevic à Agência Efe.

"Estas eleições salientaram a conexão entre o pessoal e o político, de modo que agora entendemos de uma maneira muito real como a política pode afetar e afeta nossas vidas, inclusive a saúde mental", acrescentou.

Donald Trump assusta tanto pelo que se sabe que quer fazer, como revogar a reforma da saúde ou acabar com os alívios migratórios, como pelo que não se sabe que vai fazer.

"O que morreu é um sentido de previsibilidade, um sentido que as pessoas têm um certo controle sobre seu futuro. Temem o que ocorrerá, da saúde às relações internacionais", afirmou a psicóloga Karen Koenig.

Em sua cidade, Sarasota (Flórida), se temia pelo enfado dos apoiadores de Trump - que ganhou no condado - após sua derrota, mas sua reação perante a vitória "dá o mesmo medo": foram registradas ocorrências de insultos e mensagens humilhantes contra as mulheres em espaços públicos.

Em outros lugares do país aconteceram casos similares nestes dias: muçulmanos foram alvos de gritos que lhes mandavam voltar a seu país e crianças latinas escutaram no recreio seus colegas cantando "Construam o muro", o grito de guerra da campanha de Trump contra a imigração mexicana.

"As pessoas estão de luto pela perda do que significa fazer o correto. O novo presidente atiçou o ódio, mentiu e fez tudo o que sempre nos disseram que não se deve fazer", ponderou Kriss Kevorkian, especialista em luto da Universidade Walden.

"Ensinamos nossos filhos que devem atuar de uma maneira que é completamente oposta ao comportamento do homem que em breve será o presidente. É um acúmulo de perdas, de decência, civismo, respeito, amabilidade, empatia e compaixão", completou.

O impacto emocional da vitória de Trump em milhões de americanos vai além da esperável decepção ou enfado pelo triunfo de um candidato em quem não se votou.

"Eu não estou assim porque ganhou um republicano, mas porque ele ganhou. Porque ganhou uma pessoa que vai destruir o trabalho de décadas por conseguir um país mais justo para todos", disse Caroline, que na quarta-feira não pôde conter as lágrimas ao chegar ao escritório e ver que o impensável era verdade: Donald Trump é o presidente eleito.

No dia seguinte das eleições muitos trabalhadores e estudantes receberam e-mails de suas instituições reafirmando seu compromisso com a tolerância, a inclusão e a liberdade perante "o medo" gerado pela vitória de Trump.

"Nenhum resultado eleitoral na história recente dos Estados Unidos gerou os sentimentos de choque, ansiedade e decepção que milhões de americanos expressaram nos últimos dias", ressaltou Anthony Corrado, especialista em Política Governamental no Colby College do Maine.

Nas universidades do país, que são junto às grandes cidades o epicentro dos protestos contra Trump, foram convocados grupos de orientação para processar em comunidade o resultado eleitoral.

Outros, como Lauren, preferem recuperar-se por sua conta. "Estive estudando as fases do luto e acho que já passei pelo choque e o enfado e agora estou entrando na depressão. Mas espero que deste golpe saiamos mais fortes e nos organizemos para evitar que Trump faça retroceder o relógio do progresso", concluiu.

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