Desprezo de Trump pela imprensa ameaça instalar-se na Casa Branca

Pedro Alonso.

Washington, 16 nov (EFE).- Após sua assombrosa vitória nas eleições dos Estados Unidos, o novo presidente eleito, Donald Trump, segue conservando um velho hábito: um desprezo pela imprensa que ameaça instalar-se na Casa Branca e provoca inquietação no país.

Trump rotulou os veículos de comunicação (os que fazem críticas a ele, que são a maioria) de "desonestos", "repugnantes" e "lixo" nos comícios de sua incendiária campanha política, mas o triunfo nas urnas não serviu de bálsamo para silenciar os tambores de guerra.

Apenas dois dias após vencer a democrata Hillary Clinton no pleito de 8 de novembro, o magnata republicano voltou a atacar os jornalistas, aos quais acusou de encorajar os protestos contra o resultado eleitoral que sacudiram as ruas de várias cidades americanas.

"Acabamos de ter eleições presidenciais muito abertas e bem-sucedidas. Agora, manifestantes profissionais, incitados pelos veículos de comunicação, estão protestando. Muito injusto!", escreveu Trump em sua conta no Twitter.

No dia seguinte, por ocasião de sua primeira entrevista a uma emissora de TV como presidente eleito para a conhecida jornalista Lesley Stahl, da "CBS", o multimilionário nova-iorquino menosprezou os veículos de comunicação.

"Acho que a imprensa demonstrou que é muito mais frágil do que as pessoas pensam. Ninguém foi tão golpeado pela imprensa como eu. E aqui estou", disse a Stahl o presidente eleito, que chegou a negar credenciais de imprensa para seus atos de campanha a veículos de comunicação respeitados como "Politico", "The Washington Post" e "BuzzFeed".

Nesta quarta-feira, Trump voltou a usar o Twitter para criticar o "The New York Times", ao qual acusou de publicar notícias "totalmente falsas" sobre o processo de transição à Casa Branca, que o jornal descreveu como "caótico" por desacordos e demissões na equipe a cargo dessa transferência.

"'The New York Times' está realmente incomodado por parecer tolo na cobertura que faz sobre mim", acrescentou o magnata, que no domingo passado declarou que o jornal perdia "milhares de assinantes" por sua "cobertura muito pobre e inexata do fenômeno Trump".

Além de seus atritos contra o chamado "quarto poder", o multimilionário causou mal-estar por impedir que os jornalistas viajassem com ele enquanto se deslocava de Nova York a Washington na quinta-feira passada para se reunir com o presidente Barack Obama.

Trump violou assim uma tradição arraigada no país, segundo a qual um "pool" de repórteres acompanha em suas viagens tanto o presidente como seu sucessor eleitor.

"Isso é inaceitável. Alguém precisa regulá-lo", declarou Wolf Blitzer, ex-correspondente da Casa Branca e considerado uma lenda da "CNN".

O presidente da Associação de Correspondentes da Casa Blanca, Jeff Mason, comentou que "essa decisão poderia deixar os americanos cegos sobre seu paradeiro e bem-estar (do magnata) no caso de uma crise nacional".

Em 2001, por exemplo, a população soube - graças ao "pool" - que o então presidente, George W. Bush, recebeu em uma escola da Flórida a notícia dos atentados de 11 de setembro contra as Torres Gêmeas em Nova York e o Pentágono em Washington.

Perante a avalanche de críticas, Hope Hicks, porta-voz de Trump, emitiu um comunicado: "Esperamos operar um 'pool' tradicional e desejamos desenvolver nossos planos em um futuro próximo".

A equipe de transição do empresário também não divulga sua agenda diária, como ocorreu em anteriores transferências presidenciais, para desgosto do pequeno grupo de jornalistas que tenta cobrir na Trump Tower de Nova York as contínuas idas e vindas de pessoas de confiança do multimilionário para montar seu gabinete.

"Não temos um 'pool' formal. Isso mudará. Um dos objetivos é melhorar a comunicação. Na noite passada poderia ter havido uma melhor comunicação", admitiu hoje Jason Miller, porta-voz da equipe de transição.

Miller se referiu à saída do magnata e sua família, sem dizer nada ao "pool", na terça-feira à noite para jantar no exclusivo restaurante 21 Club, próximo ao arranha-céu da Trump Tower e que teve como convidados vários ex-presidentes dos EUA.

Oito dias depois das eleições, Trump também não concedeu uma entrevista coletiva para dar explicações de questões como a polêmica nomeação como estrategista principal de seu governo de Steve Bannon, criticado por seus comentários racistas e misóginos.

Após ganhar as eleições de 2008, Obama, para citar um caso, deu sua primeira entrevista coletiva na qualidade de presidente eleito três dias após o pleito.

No entanto, Trump, que durante a campanha defendeu o endurecimento de leis para processar repórteres que "deliberadamente" escrevam "artigos negativos, horríveis e falsos", concedeu sua última entrevista coletiva no último dia 27 de julho e, por enquanto, sua equipe de transição não anunciou planos para a próxima.

Desde que ganhou o pleito, o magnata concedeu duas entrevistas cuidadosamente planejadas, uma ao "The Wall Street Journal" e outra a Stahl no programa "60 minutes", mas sem o "toma lá, dá cá" habitual nas coletivas de imprensa.

Segundo pôde comprovar Stahl em sua conversa com o empresário, o "rancor (de Trump) contra a imprensa é total, vivo e profundo", mesmo após sua vitória nas eleições.

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