Harvard se mobiliza para proteger seus estudantes imigrantes ilegais de Trump

Jairo Mejía

Em Washington

Poucas horas depois da confirmação da vitória eleitoral de Donald Trump, os alunos de uma classe de cultura latina da Universidade de Harvard iniciaram um movimento que, nesta quarta-feira (16), se estendeu por todo os Estados Unidos e pede o apoio direto dos centros educativos para evitar as deportações prometidas pelo presidente eleito.

"Quando cheguei na quarta-feira, o moral dos alunos estava no chão", declarou à Agência Efe Lorgia García Peña, professora adjunta do Departamento de Literatura e Línguas Românticas da Universidade de Harvard.

Segundo Rosa Vázquez, aluna da classe de "Latinidade" ministrada por García, na sala de aula pairava uma nuvem de nervosismo e decepção após a eleição de Trump, que durante a campanha se centrou em criticar os imigrantes ilegais e prometeu expulsá-los do país.

Em apenas poucas horas, Vázquez e os outros alunos da aula de cultura latina de Harvard redigiram uma carta com passos concretos para proteger os imigrantes ilegais que estudam na prestigiada universidade de batidas maciças contra imigrantes ilegais.

A carta recebeu até esta quarta apoio sem precedentes, com 5.000 signatários entre o alunado e o professorado da universidade e se transformou na semente de um movimento em centros universitários de todo o país que querem emular suas propostas.

Os pedidos dos signatários são que a Administração de Harvard contrate um decano de Igualdade e Diversidade, um posto atualmente vago, e criem sob essa autoridade um responsável dedicado exclusivamente a proteger os estudantes imigrantes ilegais.

Além disso, recomendam que se habilitem lugares como as igrejas dentro do campus para que se transformem em "santuários" de estudantes imigrantes ilegais, no caso de batidas das autoridades migratórias.

Outra das medidas é obter um compromisso das autoridades da universidade para que não comuniquem o status migratório de seus alunos às autoridades federais caso se iniciem as temidas batidas em todo o país para deportar imigrantes.

Estas ideias são similares às que estão sendo apresentadas em universidades de todo o país, como Yale, Universidade de Nova York e Stanford (Califórnia), que nesta quarta-feira organizaram ações de protestos sob o lema de "Campus Santuário".

Mais de 80 universidades e centros educativos em todo o país pediram nesta quarta que os prédios universitários se transformem em refúgios que protejam os estudantes imigrantes ilegais, inclusive os que até agora se beneficiaram da ação diferida do presidente Barack Obama, que exclui da deportação aqueles que chegaram quando crianças ao país e cresceram nos EUA.

"Os alunos (da professora García) já estávamos afetados pela retórica da campanha, e a vitória (de Trump) nos afetou muitíssimo, alguns até acabamos chorando", relatou a estudante mexicana.

Vázquez é uma dos 40 imigrantes ilegais que estão matriculados em Harvard. Chegou aos sete meses aos Estados Unidos, mas viveu no México dos dois aos 14 anos, motivo pelo qual não está apta para a ação diferida, o que a transforma em um dos alunos de Harvard mais vulneráveis às medidas que Trump prometeu.

"É muito importante mobilizar-se e promover a empatia por pessoas que estão em risco de deportação", destacou Vázquez, que assegura que seu sonho sempre foi estudar em Harvard e que ama os Estados Unidos, um país no qual vivem seus pais e do qual seus irmãos são cidadãos.

Paralelamente, cerca de 350 professores e membros da Universidade de Harvard lembraram em outra carta que as declarações de Trump contra imigrantes e muçulmanos são contrárias aos princípios defendidos pela instituição.

"A diversidade não é assunto só de admissão, é um assunto de compromisso democrático e de aprendizagem do outro. É central na missão pedagógica e intelectual da universidade", lembraram os professores.

O germe nascido na sala de aula de Lorgia García excedeu todas as expectativas dos alunos que iniciaram esse debate no dia seguinte das eleições, especialmente com o apoio em massa de outros estudantes em Harvard e de professores.

Vázquez confia agora que com "pressão e visibilidade" das universidades de todo o país, onde os chamados "dreamers" trabalham para realizar seus sonhos e os de seus pais de uma vida melhor para seus filhos se transformem em refúgio dos imigrantes ilegais melhor formados do país.
 

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