Onda de intolerância percorre os EUA após vitória de Trump

Cristina García Casado.

Washington, 16 nov (EFE).- A eleição do republicano Donald Trump como novo presidente dos Estados Unidos gerou uma onda de intolerância pelo país, com mais de 400 incidentes de ódio contra imigrantes, negros, homossexuais, muçulmanos, hispânicos e mulheres em só uma semana.

Desde a quarta-feira passada ocorrem histórias de intimidações, insultos, ameaças e pixações com mensagens supremacistas brancas, homofóbicas e misóginas que comemoram explicitamente a vitória de Trump.

A organização Southern Poverty Law Center, que luta desde 1971 contra a intolerância, recolheu os fatos divulgados pela imprensa local, pelas redes sociais e por uma plataforma de seu site na qual os cidadãos podem reportar incidentes de ódio.

Segundo o último boletim da organização, divulgado nesta quarta-feira, já são 437 os casos de ódio e assédio registrados, "muitos" deles com "referências diretas à campanha de Trump ou a seus slogans".

Em uma só semana ocorreu um número de casos equivalente ao que a organização costuma detectar em pelo menos seis meses. Os imigrantes (136), os negros (89) e os homossexuais (43) foram as vítimas da maioria dos fatos, enquanto também houve dezenas de ataques contra os muçulmanos e as mulheres.

Em pelo menos 30 casos foi utilizada uma suástica, símbolo adotado pelo partido Nazista na Alemanha dos anos 1920, enquanto em dezenas de lugares do país apareceram pixações com mensagens como "Apenas brancos, Nação Trump", "Poder branco" e "Tornar os Estados Unidos brancos de novo", que parafraseia o slogan de campanha do magnata: "Tornar os Estados Unidos grandes de novo".

Um dos dados mais alarmantes é que a maioria dos fatos ocorreram em escolas de educação primária e ensino médio, onde as organizações de direitos civis já tinham detectado no último ano um reflexo do discurso de ódio da campanha eleitoral.

São histórias como a de uma professora muçulmana da Geórgia, que recebeu uma mensagem com o recado de que ela e o véu islâmico (hiyab) "já não estão permitidos".

"Por que você não o amarra ao redor do pescoço e se penduras com ele? Assinado: Estados Unidos", complementava o texto da mensagem.

Em outros colégios, mães latinas explicaram pelas redes sociais como sofriam ao deixarem os filhos com colegas que os provocam no refeitório ou no pátio com a frase "Construa o muro", uma das ideias de Trump contra a imigração mexicana.

Alguns especialistas comparam este aumento de incidentes de ódio com o que ocorreu contra os muçulmanos após os atentados de 11 de setembro de 2001 contra os EUA, enquanto os vídeos de assédio a imigrantes em transportes públicos lembram os que aconteceram no Reino Unido após o triunfo do sim ao "Brexit" no referendo de junho.

Nos escritórios do Council on American-Islamic Relations foi registrado um aumento de denúncias de assédio desde a vitória de Trump, o que levou a organização a pedir aos imames que abordem com suas comunidades o medo perante a atual onda de intolerância. Mobashra Tazamal foi vítima de uma rejeição tripla, por ser muçulmana, mulher e imigrante.

"Um homem me disse na rua que eu tenho que sair do país, mas este país é a única casa que conheço. Trump incentivou a violência contra mim, atacou todas as minhas identidades", contou a jovem, que emigrou do Paquistão para os Estados Unidos aos cinco anos.

Embora menor, também foi registrado um aumento nos incidentes de antissemitismo, de acordo com a entidade judia Anti-Defamation League.

"Estamos vendo uma parte deste país que sabíamos que existia, mas que não tinha se revelado assim até agora. É como se o novo presidente tivesse aberto a caixa de Pandora do discurso do ódio", disse a assistente social Kriss A. Kevorkian.

Organizações e especialistas confirmam a onda de intolerância desencadeada pela vitória de Trump e temem que a escolha de Steve Bannon, um explosivo agitador midiático próximo à extrema-direita, como seu estrategista chefe na Casa Branca, faça com que os intolerantes se sintam legitimados.

Desde a noite eleitoral, Trump postou mais de 20 mensagens no Twitter, com ataques à imprensa e aos que protestam contra ele nas ruas, mas nenhum condenando os incidentes de ódio que dezenas de cidadãos estão cometendo em seu nome.

Perguntado sobre a onda de casos de intolerância em entrevista à emissora "CBS" na sexta-feira passada, o presidente eleito se mostrou "surpreso de ouvir isso" e pediu, olhando para a câmera, o fim destes ataques. Os incidentes continuaram, mas Trump não se manifestou sobre o assunto.

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