Sul-sudaneses fogem de áreas em conflito antes que "morram de fome"

Atem Simón Mabior.

Juba, 17 nov (EFE).- "Perdi a esperança de que a situação melhore no Sudão do Sul. Não podemos fazer nossas colheitas devido à falta de segurança e, antes que a fome nos mate, decidi deixar a região com minha família e ir para um campo de refugiados, já que as pessoas aqui estão morrendo de fome", disse à Agência Efe Rosa Ufuhu.

Antes de iniciar sua fuga rumo ao campo de refugiados de Kakuma, no Quênia, Rosa realiza os últimos preparativos para sua saída do país.

Seu lar está situado na região de Nadapal, situada na fronteira sul com o Quênia e onde o conflito no Sudão do Sul ameaça provocar uma grave crise de fome devido à incapacidade dos agricultores de realizarem suas colheitas devido aos constantes ataques.

Outra região afetada é o estado de Alto Nilo, onde há fortes temores entre os camponeses de que este ano não será possível proceder com suas colheitas devido aos incessantes ataques que começaram a ser lançados pela oposição armada contra a cidade de Alrank, no extremo norte do estado.

Também foram registrados ataques contra os agricultores nas regiões de Wad Akuna e Yalhak, entre outras.

"É verdade que sofreremos uma crise de fome se não conseguirmos colher o milho que semeamos em uma superfície de 1 milhão de 'fedanes' (4.200 quilômetros quadrados), e que seria suficiente para nossa região e os estados de Bahr al Gazal e Equatória", disse à Efe o camponês Deng Thon, de Alrank.

Nesse sentido, Thon denuncia que ele e seus companheiros foram vítimas de ataques por parte dos insurgentes que tinham a intenção de destruir suas colheitas.

A crise alimentar explodiu mesmo com as previsões de uma boa safra agrícola, com colheitas abundantes em várias regiões do país.

No entanto, o aumento dos enfrentamentos entre o governo e a oposição obrigou milhares de pessoas a abandonarem suas terras para buscar refúgio em centros da ONU e acampamentos de deslocados em países vizinhos, como Uganda e Quênia.

No estado de Equatória, no extremo sul do país, muitos de seus habitantes se deslocaram para Quênia e Uganda.

Além disso, os civis que optaram por permanecerem em suas áreas nos estados de Alto Nilo (nordeste) e de Unidade (noroeste) não podem transitar com liberdade para efetuarem as colheitas desta safra, e os combates em Unidade levaram milhares de habitantes a buscar refúgio em centros da ONU.

Depois que a situação se estabilizou gradualmente com a assinatura de um acordo de paz no início do ano, esses cidadãos começaram a retornar a seus lares, dos quais agora voltam a fugir com a explosão de novos confrontos, o que os obrigou a retornar para os centros de acolhimento.

"No início deste ano, saímos do centro da ONU no qual tínhamos nos refugiado depois da assinatura do acordo de paz e do retorno de uma delegação da oposição a Juba, por isso começamos a semear de novo", relatou por telefone à Efe Wiego Samsun, camponês de Bantiu, capital de Unidade.

No entanto, Samsun lamenta que o aumento dos combates tenha impedido os camponeses de efetuarem suas colheitas, por isso estes voltaram ao centro da ONU "por medo de uma crise de fome".

Além disso, mais de 1 milhão de sul-sudaneses fugiram do país, 90% deles mulheres e crianças, segundo dados do Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês).

Mais de 4 mil civis entram por dia em território ugandense para se refugiar no acampamento de Bidibidi, que foi aberto em agosto, e atualmente acolhe mais de 188 mil sul-sudaneses.

A porta-voz do Programa Mundial de Alimentos, Bitina Lusher, afirmou recentemente que a desnutrição supera 15% da população - o que é um nível de emergência - em sete dos dez estados que compõem o Sudão do Sul, e que esta desnutrição chega a 30% em Bahr al Gazal do Norte.

Apesar desses números, o vice-ministro de Informação do país, Akol Paul Kordit, afirmou em declarações à Efe que seu país sofre "uma crise econômica, que não pode ser qualificada como uma crise de fome, como alegam algumas organizações humanitárias".

Por isso, Kordit pediu a essas instituições que intensificassem seus "esforços para ajudar as pessoas no país com alimentos e remédios, ao invés de escreverem relatórios negativos".

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