Economia, insegurança e corrupção: os desafios do próximo governo do Haiti

Etant Dupain.

Porto Príncipe, 18 nov (EFE).- A recuperação da economia, o êxodo de milhares de cidadãos, a corrupção e os estragos causados pelo furacão Matthew sobre boa parte do país, são alguns dos principais desafios que o novo governo do Haiti deverá enfrentar.

A isto se somam os graves problemas de saúde, tráfico de drogas, baixos níveis de educação, um Poder Justiciário fraco e a insegurança, que só é amortecida em parte pela presença de milhares de boinas azuis das Nações Unidas.

Antes da calamidade causada por Matthew, o Haiti já tinha um quadro desolador: 3,5 milhões de seus quase 11 milhões de habitantes em situação de pobreza e outros 1,5 milhão abaixo dessa linha, enquanto o desemprego no país está em trono de 70%, e a inflação 12%.

Além disso, nos últimos dias, o gourde, a moeda local, estava sendo vendida no câmbio pelo valor de 66 para cada dólar.

Mais de um mês depois da passagem do furacão Matthew, que deixou pelo menos 573 mortos, 75 desaparecidos e danos avaliados em US$ 1,89 milhão, a situação de milhares de deslocados continua sendo crítica.

Cerca de 140 mil pessoas permanecem em refúgios temporários no Haiti, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA), que alertou também que a temporada de semeadura em novembro e da colheita esperada para o princípio de 2017, podem ser criticamente afetadas, exacerbando e prolongando a insegurança alimentar aguda até meados do próximo ano.

O furacão Matthew, que causou a pior crise humanitária depois do terremoto de 2010, provocou o ressurgimento do cólera no país.

Em Les Cayes (sul) e Jeremie (sudoeste), o governo e o Unicef iniciaram um amplo programa de vacinação contra o cólera, que já matou quase 10 mil haitianos desde que surgiu no país em 2010, meses depois do devastador terremoto que causou a morte de aproximadamente 300 mil pessoas, um número similar de feridos e cerca de 1,5 milhão de deslocados.

As ruas de Porto Príncipe ainda são testemunhas dos milhares de refugiados do terremoto, que vivem em condições precárias em casas improvisadas e barracas.

A crise política surgida antes das eleições do ano passado e posterior a eles causou a paralisia de projetos de investimento em vários pontos da geografia haitiana e, particularmente, acarretou na diminuição de turistas, uma das fontes de sustento do país.

A corrupção governamental é alarmante, segundo destacam diversos setores no país. Uma comissão do Senado revelou a existência de uma ampla rede de desvio nos fundos provenientes do programa Petrocaribe, que deveriam ser utilizados em assistência social.

Há vários anos os Estados Unidos decidiram suspender boa parte da ajuda enviada ao país, porque os recursos supostamente estavam indo parar nos bolsos de funcionários do alto escalão do governo haitiano.

Além disso, a situação é tão dramática que faz com que milhares de haitianos se desloquem para a vizinha República Dominicana, e em menor número para Estados Unidos, Brasil, Chile e Panamá, entre outros países.

Na República Dominicana vivem cerca de 500 mil haitianos, segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas deste país, a maioria deles de forma irregular.

Ao longo deste ano, aproximadamente 10 mil haitianos conseguiram chegar ao México com o propósito de emigrar para o território dos Estados Unidos; e o Brasil deu no ano passado residência permanente para quase 50 mil haitianos que ingressaram no país nos últimos cinco anos.

As remessas que os haitianos enviam do exterior representam uma fonte de renda vital para a debilitada economia do país, já que, segundo o Banco Mundial (BM), a diáspora foi responsável por enviar US$ 1,997 bilhões em 2015, 23% do PIB do Haiti.

"Se eu vencer as eleições, vamos criar empregos, criar programas de saúde pública e investir na juventude", disse recentemente em um ato de campanha o candidato Jude Celestin, que foi o segundo mais votado nas eleições presidenciais anuladas do ano passado.

Já a candidata presidencial do partido Família Lavalas, Maryse Narcisse, afirma que deseja chegar ao poder para, entre outras coisas, "terminar com o sistema de exclusão social que só favorece à minoria que controla os recursos do país".

"No ano passado, gastamos US$ 100 milhões em eleições que foram canceladas; estamos nesta crise porque há pessoas que não veem o país como prioridade. Hoje, o que estou propondo é colocar o Haiti à frente, como a prioridade das prioridades", exclamou em campanha Jovenel Moise, o candidato mais votado no pleito cancelado.

O panorama com o qual o novo governo haitiano vai se deparar exigirá dos seus integrantes enormes esforços para melhorar em parte a penosa situação do país mais pobre das Américas.

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