Imigrantes haitianos esperam eleições do outro lado da fronteira

María Montecelos.

Santo Domingo, 18 nov (EFE).- Os imigrantes haitianos que residem na República Dominicana, uma boa parte deles ilegais, se debatem entre o ceticismo e a esperança que a situação econômica, social e política melhore em seu país após as eleições deste domingo.

Uma situação que piorou pela passagem do furacão Matthew pelo Haiti, que obrigou a adiar pela quarta vez o pleito previsto para o dia 9 de outubro, diante da devastação causada pelo fenômeno climático: 573 mortos, 75 desaparecidos e US$ 1,89 bilhão em danos.

Algo mais de 6 milhões de haitianos foram convocados a votar em um dos 27 candidatos presidenciais, mais de um ano depois de ter sido realizada uma eleição cancelada por irregularidades.

O pleito ocorre com um governo provisório comandado por Jocelerme Privert desde fevereiro, depois de o mandato do ex-presidente Michel Martelly ter terminado antes da realização de nova eleição.

Há 500 mil haitianos na República Dominicana, segundo dados da Mesa Nacional para Migrações e Refugiados (Menamird), mas muitos, especialmente os que estão em situação irregular, têm medo de falar com a imprensa.

Em junho de 2015, o Plano Nacional de Regularização de Estrangeiros expirou. O projeto tinha sido criado em 2013, após a sentença do Tribunal Constitucional da República Dominicana, que estabeleceu que crianças com pais estrangeiros imigrantes ilegais no país desde 1929 não tem direito a obter nacionalidade.

Cerca de 200 mil habitantes não se inscreveram no plano ou, inclusive, entraram ilegalmente no país desde então. Por isso o medo de serem deportados ao se exporem falando com a imprensa.

No bairro chamado "pequeno Haiti" em Santo Domingo, padre Pierre, pastor de uma igreja batista onde se reúnem imigrantes do país vizinho, afirmou à Agência Efe que muitos haitianos têm esperança de que as eleições sejam o início de uma mudança que os permita voltar.

Eles acreditam que um novo governo trará estabilidade política, resultando em investimentos estrangeiros e locais para melhorar a economia do país, e querem fazer parte do processo nas urnas. Diante da impossibilidade de votar na República Dominicana, muitos vão se arriscar e voltar ao país para escolher o novo presidente.

"Os haitianos que têm documento eleitoral vão votar, escutei isso. O desejo de todos é que haja um governo democrático no Haiti. Peço que os líderes trabalhem para que haja estabilidade política, econômica e social", disse o pastor.

"Esperamos que haja uma eleição livre e que o vencedor conte com o apoio dos demais para que o país avance e haja progresso. Quando houver estabilidade, acredito que voltarão a trabalhar imediatamente e investir por lá", completou Pierre.

Para o pastor, é importante aprender com os erros do passado porque a situação do país é resultado dos equívocos cometidos pela classe política do país. "Eles devem refletir porque a culpa não é do povo, é deles", afirmou.

Uma visão diferente é apresentada pelo diretor do Movimento Cultural dos Trabalhadores Haitianos (Mosctha), Roudy Joseph, que acredita que as esperanças dos compatriotas de que as eleições tragam mudança são infundadas.

"Essa ilusão é consequência da propaganda através das redes sociais. Se mostra qualquer pequena ação, e isso faz os que vivem fora creem que eles (os políticos) estão fazendo as coisas", disse.

Segundo Joseph há, inclusive, pessoas que estão no Haiti orientando familiares e amigos na República Dominicana a votarem em um candidato determinado. Por isso, o Mosctha está organizando debates com a comunidade haitiana em Santo Domingo para que os membros do órgão estejam melhor informados na hora de ir votar.

O diretor da Mosctha, no entanto, acredita que poucos irão cruzar a fronteira de volta para exercer o direito ao voto porque existe um enorme "desencanto" com a classe política. Para ele, a participação eleitoral, que foi de 30% no ano passado, deverá reduzir ainda mais, complicada também pelos efeitos do furacão Matthew.

Além disso, os candidatos à presidência do Haiti não fizeram uma "campanha orientada aos imigrantes". "Em seus programas não há conteúdos sobre migração nem sobre as relações bilaterais com a República Dominicana. A diáspora se sente esquecida", explicou.

Para o representante dos trabalhadores haitianos, a salvação do país não está no processo eleitoral.

"Cumprir com a premissa básica da democracia de exercer o sufrágio universal não vai acabar com os problemas do Haiti. O que precisamos é determinar um modelo de desenvolvimento. Que todas as forças políticas e sociais tenham um projeto em comum", disse.

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