Lisboa, o último reduto dos ofícios em extinção

Diego Alfonsín.

Lisboa, 21 nov (EFE).- Lisboa é provavelmente a última das principais cidades europeias onde ainda é possível encontrar pelas ruas profissionais de ofícios prestes a desaparecer, como amoladores, engraxates ou vendedores de castanhas assadas.

Houve um tempo no qual um engraxate podia ter uma fila de espera de 20 clientes na praça do Rossio da capital portuguesa e conseguir um salário acima da média nacional, algo impensável atualmente.

Hoje, em uma manhã ensolarada, podemos contabilizar entre 15 e 20 engraxates fazendo brilhar os sapatos de seus clientes no centro da cidade, uma presença chamativa para os visitantes estrangeiros que os contemplam com assombro e curiosidade.

Américo Santos ainda não tinha oito anos quando começou a trabalhar como engraxate e, embora em algumas épocas tenha chegado a ter outros empregos, "raro era o fim de semana no qual não vinha com minha gaveta à rua para lustrar sapatos, e já se vão 53 anos", comentou com um sorriso.

Cada engraxate tem seu posto fixo na rua pelo qual paga uma licença anual à prefeitura de Lisboa e uma clientela habitual que normalmente mantêm há anos.

O preço pela limpeza de um par de sapatos oscila entre 2 e 3 euros (entre R$ 7 e R$ 10), apesar de não ser raro que os clientes deixem gorjetas que podem dobrar essa quantia.

Um dos engraxates mais carismáticos da região do Rossio é Carlos Manuel Fernandes, conhecido como "Fininho" por seu aspecto alto e magro e com posto fixo na Rua do Desamparo.

"Fininho" exerce esta atividade há 40 anos e quando escuta a palavra "engraxate" corrige com seriedade: "Não sou engraxate, me dedico à limpeza do calçado".

Ao redor dele se forma um pequeno núcleo de leitores de jornal aposentados, vendedores de loteria e plastificadores de documentos, o que dá à rua um ar familiar e pitoresco.

Manuel Duarte é outro dos veteranos da praça do Rossio, tem 70 anos e viveu muitos tempo em Madri, onde trabalhava com tapeçaria durante a semana e como engraxate nos finais de semana no Palácio de Imprensa da capital.

Há 24 anos no Café Nicola havia um engraxate fixo, algo comum em muitas cafeterias da época, "se chamava Joaquin, mas quando morreu já não buscaram outro para substituí-lo", contou uma das garçonetes mais veteranas deste famoso café lisboeta.

Nos bons tempos havia inclusive locais dedicados a este ofício onde trabalhavam de quatro a cinco engraxates, mas as coisas mudaram e a Andorinhas, situada na rua Santa Justa, foi a última das engraxatarias a fechar na capital lusa.

Também pelo centro, do final de outubro até março, é frequente encontrar nuvens de fumaça pairando sobre as ruas de Lisboa, sinal de que os pequenos reboques a carvão dos vendedores de castanhas assadas não estão longe.

O ofício de castanheiro, como são chamados estes vendedores ambulantes, é outro dos antigos trabalhos que ainda estão presentes nas ruas da capital lusa.

Como acontece com os engraxates, os vendedores de castanhas também têm seu posto fixo na rua.

Mas a paisagem destes ofícios tradicionais em vias de extinção não estaria completa sem a figura dos amoladores, que percorrem as ruas da cidade com um assobio para avisar de sua presença e uma bicicleta que levam pelas mãos.

Na barra da bicicleta têm instalada uma rudimentar roda para amolar facas e tesouras que fazem girar com uma manivela manual, enquanto na parte traseira levam uma caixa de ferramentas com as quais consertam guarda-chuvas e outro tipo de instrumentos de ferro e metal.

Pedro Maldonado é um deles, está há 54 anos em um ofício no qual começou com 15, é da região portuguesa do Alentejo e herdou o ofício de seu pai, que por sua vez aprendeu o que saiba com seu avô.

O preço por este serviço oscila entre 2 e 5 euros e, "embora já não seja como antes, ainda dá para ir sobrevivendo a cada mês, às vezes ganho 10 euros ao dia, às vezes 15, mas algo sempre vem", comentou.

Mesmo os moradores mais antigos de Lisboa se surpreendem quando escutam a melodia particular do amolador surgindo pela rua, suas memórias estremecem com o resplendor de uma viagem no tempo e com curiosidade se aproximam da janela ou da porta de suas casas, seja para contemplar o retorno do passado ou para pedir o conserto de uma faca que já não corta.

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