Fidel Castro e os discursos prolíficos

Havana, 26 nov (EFE).- Capaz de pronunciar discursos ininterruptos durante horas, Fidel Castro deixou com uma prolífica oratória frases para a história que marcaram o imaginário dos cubanos e criaram toda uma escola de retórica revolucionária.

Não se sabe com exatidão a quantidade de discursos pronunciados por Fidel Castro até adoecer em 2006, embora alguns de seus biógrafos os calculem em mais de 2,5 mil, muitos com cinco horas de duração ou mais, e a maioria pronunciados de pé. Com um deles, em 1959, bateu o recorde de nove horas seguidas falando.

A frase "condena-me, não importa, a História me absolverá", pronunciada em 1953, durante o julgamento pelo frustrado assalto que liderou contra o Quartel Moncada, foi a primeira de uma longa coleção de frases que deram fama a Castro e sua revolução.

Os cubanos também não se esquecerão do "Vou bem, Camilo?", a pergunta que formulou ao chefe do Estado-Maior do Exército Rebelde, Camilo Cienfuegos, em 8 de janeiro de 1959, durante o discurso que fazia no quartel de Columbia, após a entrada triunfal dos guerrilheiros em Havana.

"Vai bem, Fidel", respondeu Cienfuegos, um dos mais populares líderes revolucionários e colaboradores de Castro, desaparecido em outubro de 1959 em um acidente aéreo em circunstâncias que nunca chegaram a ser esclarecidas.

Consciente do valor das palavras, Fidel Castro conferiu um papel de destaque à propaganda.

"A propaganda não pode ser abandonada nem um minuto porque é a alma de nossa luta", afirmou em 1953, durante sua reclusão após o fracassado assalto ao Moncada.

Depois do triunfo da revolução, em 1º de janeiro de 1959, e durante décadas, muitas de suas frases foram reproduzidas em jornais, cartazes e outdoors, e repetidas até não poderem mais por governantes.

"Companheiros operários e camponeses, esta é a revolução socialista e democrática dos humildes, com os humildes e para os humildes. E por esta revolução dos humildes, pelos humildes e para os humildes, estamos dispostos a dar a vida", proclamou Fidel Castro em 1961, às vésperas da invasão de Baía dos Porcos, ao declarar o caráter socialista da revolução.

Com uma polêmica frase que o rendeu críticas e desafetos, o líder cubano estabeleceu as bases de sua particular política cultural.

"Dentro da revolução tudo, contra a revolução nada. Quais são os direitos de escritores e artistas, revolucionários ou não revolucionários? Dentro da revolução, todos; contra a revolução, nenhum direito", assim advertiu em suas "Palavras aos intelectuais" em junho de 1961.

"Em uma fortaleza sitiada, toda dissidência é traição". Com essa frase de Santo Inácio de Loyola, justificou em várias ocasiões a repressão a opositores e críticos.

Ao "império", seu pior inimigo, como se referia geralmente aos Estados Unidos, Fidel dedicou muitos de seus discursos sem poupar retórica belicista e sem baixar a guarda nem o tom de suas desqualificações contra os sucessivos mandatários da Casa Branca, com especial aversão aos Bush, pai e filho.

"Eles (EUA) internacionalizaram o bloqueio, nós internacionalizamos a guerrilha", afirmou uma vez para explicar a ajuda prestada por Cuba às guerrilhas latino-americanas.

No ano 2000, em um de seus tradicionais discursos na Praça da Revolução pelo Dia dos Trabalhadores, Fidel Castro sintetizou seu conceito de "revolução" em um parágrafo reproduzido posteriormente em mensagens televisivas e cartazes colocados nas paredes de muitas entidades públicas por todo o país.

"Revolução é sentido do momento histórico, é mudar tudo o que deve ser mudado, é igualdade e liberdade plenas, é ser tratado e tratar os demais como seres humanos, é nos emanciparmos por nós mesmos e com nossos próprios esforços", afirmava Castro no início dessa definição.

Diante de um auditório de universitários em 2005, o líder cubano confessou que um dos maiores erros da Revolução Cubana "foi crer que alguém sabia como se construía o socialismo".

Algumas de suas afirmações nessa alocução foram recebidas como uma espécie de "legado" e "advertência" para as novas gerações quando ressaltou que "este país pode se autodestruir, esta Revolução pode se destruir, os que não podem destruí-la hoje são eles (em referência aos EUA), mas nós sim, nós podemos destruí-la, e seria nossa culpa".

Essas ideias foram retomadas posteriormente pelo irmão e sucessor no governo, Raúl Castro, para impulsionar a "atualização" do socialismo cubano com um plano de medidas centrado na economia do país.

Mas, sem dúvidas, a frase mais recordada de Fidel Castro será: "Pátria ou morte, venceremos". Com ela, o líder terminava cada um de seus discursos, uma reprodução do grito "Independência ou morte", utilizado pelos guerrilheiros contra o exército espanhol durante a guerra de independência de Cuba.

A doença que afastou Fidel do poder em 2006 o afastou também dos discursos falados, mas não dos escritos, como testemunham suas "Reflexões", a série de artigos que escreveu sobre diversos temas, a maioria internacionais, em seus anos de convalescença.

Fidel Castro morreu aos 90 anos às 22h29 de sexta-feira (hora local; 1h29 de sábado em Brasília), informou seu irmão, o presidente Raúl Castro, em pronunciamento na rede de televisão estatal.

O corpo do líder histórico da Revolução Cubana será cremado, de acordo com sua "vontade expressa", explicou Raúl, visivelmente emocionado.

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