Áustria encara auge do populismo em eleições que marcarão mudanças no governo

Antonio Sánchez Solís e Luis Lidón.

Viena, 2 dez (EFE).- A Áustria espera encerrar neste domingo um interminável processo de escolha de seu novo presidente, que já dura quase um ano, com uma das votações mais importantes da história do país, da qual pode sair o primeiro chefe de Estado ultranacionalista da União Europeia (UE).

Norbert Hofer, do xenofóbico Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), e o progressista Alexander Van der Bellen, ex-dirigente do Partido Verde, aparecem novamente cara a cara nas urnas, em uma nova eleição (a primeira foi cancelada por irregularidades) que será decisiva para a Áustria, mas que é considerada também um novo teste sobre o auge do populismo na Europa.

Em maio, Van der Bellen ganhou a primeira edição das eleições por apenas 31 mil votos em um país de 8,5 milhões de habitantes, mas o resultado foi impugnado pelo FPÖ sob o argumento de irregularidades formais, sem manipulação, que foram confirmadas pelo Tribunal Constitucional.

Desde então, os triunfos do 'Brexit' no Reino Unido e de Donald Trump nos Estados Unidos situaram as eleições austríacas como um novo campo de batalha sobre o auge do populismo de direita e com soluções simples diante de problemas complexos.

Embora na última pesquisa, divulgada no último dia 18, Van der Bellen tenha aparecido como vencedor com 51% dos votos, foi o rival que dominou a maioria de pesquisas nos últimos meses, com vantagens de seis a três pontos percentuais.

"Que Van der Bellen esteja atrás nas pesquisas possa mobilizar seu eleitorado" opinou Paul Schmidt, da Sociedade Austríaca de Política Europeia, um laboratório de ideias.

Segundo o especialista, apesar de haver certo cansaço pela repetição do pleito, uma alta participação beneficiaria o candidato progressista "porque os eleitores de Hofer costumam comparecer mais à votação, pois são mobilizados pela ira contra o sistema e pelas emoções".

Hofer e seu partido baseiam seu discurso na rejeição à elite, se apresentam como os defensores do povo da rua e colocam "a Áustria e os austríacos primeiro lugar", uma mensagem que deu certo em relação a muitos eleitores logo quando o país recebeu quase 100 mil refugiados em 2015.

A rejeição ao islã, a advertência de que entre os solicitantes de asilo chegam terroristas e estupradores e as críticas a uma UE à qual Hofer e FPÖ acusam de se impor sobre os Estados nacionais são os pilares de uma mensagem que o candidato, especialista em comunicação política, transmite com serenidade, voz suave e sorrisos.

Hofer reforçou as críticas ao islã como algo "que não faz parte dos valores da Áustria" com cartazes eleitorais com o lema "Com a ajuda de Deus".

Por sua vez, Van der Bellen é um intelectual de esquerda de 72 anos, ex-líder do Partido Verde e pró-União Europeia, apoiado pelos eleitores urbanos, acadêmicos e, em geral, todos os austríacos que temem que seu país se torne o primeiro da UE com um chefe de Estado ultranacionalista.

Após vencer por uma vantagem muito pequena as primeiras eleições e ciente de que o voto rural e das classes populares apoiam Hofer em massa, Van der Bellen intensificou a campanha no campo comparecendo a festas populares, peregrinando a uma conhecida basílica e apoiando inclusive que haja crucifixos nas escolas públicas.

A reta final da campanha foi marcada por duros ataques do FPÖ por parte do candidato progressista. Políticos desse partido disseram que há "suspeitas" de que os pais de Van der Bellen (que chegaram à Áustria fugindo da Revolução Russa de 1917) teriam se envolvido com os nazistas, e um grupo local chegou a comparar o político de esquerda com Adolf Hitler em uma fotomontagem.

A principal advertência feita pelo lado que apoia Van der Bellen é de que se Hofer chegar à presidência, convocará um referendo sobre a saída da Áustria da UE.

O candidato ultranacionalista dá a entender essa possibilidade ao dizer que consultaria o povo se a UE seguir rumo a um modelo mais federal ou ameaçar o que ele considera ser a soberania dos Estados-membros.

Esta é a primeira vez na história da Áustria que nenhum dos dois partidos que dividem o poder há 70 anos, social-democratas e democratas-cristãos, têm chances de ocupar a presidência, o que é mais um sintoma de saturação de grande parte da população com essas duas legendas.

Além da mudança para a Áustria, estas eleições presidenciais são vistas como outro teste sobre o auge do populismo.

"Seria muito bom que na Áustria rompêssemos esta coisa de Brexit e Trump, que ganhe uma pessoa a favor da Europa, por uma Áustria aberta ao exterior, aberta ao pluralismo da sociedade que temos. Este é o grande simbolismo destas eleições", avaliou Ulrike Lunacek, eurodeputada do Partido Verde e vice-presidente do Parlamento Europeu.

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