Na Áustria, imigrantes são favoráveis a partido anti-imigração

Luis Lidón.

Viena, 2 dez (EFE).- Embora os ultranacionalistas austríacos sejam conhecidos por suas severas críticas xenofóbicas, não são poucos os imigrantes naturalizados que apostarão nas eleições presidenciais deste domingo no candidato da direita Norbert Hofer por variadas razões: da incerteza econômica a preconceitos culturais.

Hofer quer se tornar neste fim de semana o primeiro chefe de Estado ultradireitista de um país da União Europeia (UE), em uma votação apertadíssima, em que cada voto conta.

Aproximadamente 500 mil pessoas habilitadas a votar nasceram fora do país, o que representa 8% do censo eleitoral. Deste total, 130 mil procedem da antiga Iugoslávia, e 70 mil, da Turquia. Somando toda a população de origem estrangeira, isto é, tanto os naturalizados quanto os imigrantes de primeira e segunda gerações, o número sobe para 1,8 milhão, apesar de nem todos terem nacionalidade e poderem votar.

A ideia ressaltada pelo candidato do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) é de a "Áustria e os austríacos em primeiro lugar" e, para isso, a extrema-direita age em duas frentes de discurso: os imigrantes "bons" são os que trabalham duro e costumam ser cristãos, e os "maus" são os que se negam a se integrar e se aproveitam das ajudas sociais, geralmente identificados como muçulmanos.

A Áustria conta com uma longa tradição de acolhimento, que trouxe ao país milhares de húngaros que escaparam em 1956 da repressão soviética, milhares de tchecos após o esmagamento da Primavera de Praga e milhares de pessoas da antiga Iugoslávia que fugiram das guerras da década de 90. A eles se uniram nos últimos tempos mais de 120 mil refugiados que chegaram ao país a partir de janeiro de 2015 e que, na maioria das vezes, são de países como Síria, Iraque e Afeganistão.

"A maioria dos estrangeiros em Viena é daqui: húngaros, tchecos, croatas, sérvios. Existem diferenças, mas uma mesma cultura. Agora, estão chegando milhares de pessoas com outros valores, com outras visões e muita gente começa a se questionar", argumenta Marko, um austríaco de origem sérvia de 32 anos, enquanto fuma um charuto eletrônico em um bar de Viena.

Marko não revela se votará em Hofer, mas defende que o candidato do FPÖ é o único que fala dos "temores" de parte da sociedade.

Além das críticas ao islã, Hofer fez referência a Deus em sua propaganda eleitoral para atrair o voto dos setores mais conservadores. Para Ulrike Lunacek, eurodeputada do Partido Verde e vice-presidente do Parlamento Europeu, a mensagem que o FPÖ quer passar é "todos somos cristãos e estamos contra os muçulmanos".

"E em certos setores mais tradicionais das comunidades sérvia e croata, isto pega", explicou ela à Agência Efe.

Estas referências tradicionalistas também fazem sucesso com grupos conservadores de outras comunidades, como a polonesa, russa, búlgara e húngara.

Além dos aspectos culturais, aparecem os econômicos, o receio de perder status devido à chegada de novos imigrantes, que são vistos como concorrentes.

"Muitos deles já estão bem integrados, mas são pobres e acham que se mais imigrantes entrarem, vão perder o que conquistaram", afirmou a eurodeputada.

Paul Schmidt, secretário-geral do laboratório de ideias da Sociedade Austríaca para a Política Europeia, concorda que tanto as incertezas econômicas quanto as diferenças culturais estão por trás do interesse de alguns imigrantes em votarem nos ultranacionalistas.

Ele lembra, por exemplo, dos esforços que o FPÖ fez para cortejar algumas minorias, como a sérvia, uma das várias a conviver no país. A extrema-direita austríaca mandou mensagens específicas a eles, como se opor à independência do Kosovo, e o presidente do FPÖ, Heinz-Christian Strache, participa de eventos de suas associações e, por algum tempo, usou uma pulseira com a bandeira da Sérvia.

Para Zarko Radulovic, jornalista austríaco de origem sérvia e especializado em movimentos migratórios, até agora o voto no partido social-democrata era o mais difundido entre os sérvios, mas o FPÖ foi a única legenda que flertou efetivamente com essa comunidade.

"O FPÖ diferencia bons e maus imigrantes. Antes os maus eram os sérvios, vistos como criminosos de guerra. Agora os sérvios são bons, e os maus são os muçulmanos", resumiu.

Apesar dos ataques ao islã e aos turcos, os ultranacionalistas austríacos tentaram se aproximar de algumas comunidades muçulmanas, como a curda, segundo o escritor Ahmet Emir.

"Tentaram uma aproximação com os curdos, mas as associações curdas não querem saber deles, porque a maioria é de esquerda e enxerga no FPÖ tendências 'fascistas", afirmou o também fotógrafo e colunista, que é austríaco de origem curda.

O FPÖ acredita que poderia ter a simpatia dos curdos por suas críticas à Turquia, mas "pensar que o inimigo do meu inimigo é meu amigo, neste caso, não procede", concluiu Emir.

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