Fisiculturismo, o sonho de uma palestina na conservadora Gaza

Saud Abu Ramadan.

Cidade de Gaza, 4 dez (EFE).- A jovem Dania al Masri rompe barreiras culturais e sociais na Faixa de Gaza há um ano e meio praticando um esporte geralmente reservado para os homens na conservadora Faixa palestina: o fisiculturismo.

Dania, de 20 anos, realiza suas práticas esportivas em uma das academias do território, com a esperança de que algum dia possa participar de alguma das competições internacionais de prestígio, e vencê-la.

"Estou treinando principalmente com o sistema de crossfit, que inclui exercícios livres com pesos. Prefiro este tipo de esporte mais que o treinamento apenas em máquinas", disse a jovem atleta enquanto tomava um fôlego de alguns minutos para falar com a Agência Efe.

Vestida com um moletom preto da cabeça aos pés, e com a cabeça coberta com um lenço de cor clara, Dania vai à academia todos os dias para seus treinamentos, que realiza durante duas horas sem a ajuda de nenhum preparador físico.

A jovem insiste que, para ela, o treinamento em máquinas não é suficiente e que são os pesos que dão melhores resultados.

"Geralmente uso todo tipo de peso para desenvolver os músculos em todo o corpo", explicou a jovem, acrescentando que depende principalmente de um treinamento funcional que "não só construa músculos, mas também melhore e desenvolva seu estado de ânimo".

Esta jovem palestina chegou à conservadora Gaza há apenas três anos procedente dos Emirados Árabes Unidos, onde vivia com seus pais. Fez isso para estudar em uma das universidades da Faixa.

Dania contou que desde os seis anos seus pais tentaram convencê-la a fazer aulas de balé, ginástica ou natação, esportes muito mais tradicionais.

Isso porque em Gaza, governada pelo movimento islamita Hamas, esta magra jovem é provavelmente a única menina que se dedica ao fisiculturismo e sonha em se transformar em campeã do mundo desta modalidade.

As mulheres e adolescentes da elite social do enclave mediterrâneo que querem estar em forma costumam recorrer às técnicas mais elegantes do fitness.

"Acredito que não há muitas meninas no fisiculturismo porque infelizmente muitos seguem pensando que este tipo de esporte é só para homens", afirmou com a esperança de que algum dia ela e outras ajudem a mudar hábitos e costumes.

Nesse sentido, Dania destacou que "o esporte é igualitário para homens e mulheres e que no sagrado Corão não há absolutamente nada que proíba à mulher de praticar esporte".

A jovem lembrou ainda que o profeta Maomé ordenou que se ensinasse os filhos a nadar, disparar e montar a cavalo, sem dizer explicitamente "filhos homens".

Na Faixa de Gaza, sob um estrito bloqueio israelense desde que os islamitas controlam o território, vivem quase dois milhões de palestinos, dos quais 49% são mulheres.

Ao contrário de quando o enclave esteve governado pelo movimento nacionalista Fatah, entre 1994 e 2007, os direitos e liberdades das mulheres foram notoriamente afetados pela introdução de sucessivas leis que apelam ao tradicionalismo da região e à lei religiosa islâmica, a "sharia".

Tamanho é o grau de religiosidade que, há pouco menos de um ano, quatro jovens que ousaram sair para passear de bicicleta às sextas-feiras foram o epicentro de uma onda de críticas pelas redes sociais pelo atrevimento de "cativar os homens" e desafiar as conservadoras tradições da Faixa.

"Eu considero que a mulher não deve temer as tradições e que devemos trabalhar para redirigir e aconselhar nossa sociedade", declarou Dania, plenamente convencida de que é possível realizar uma mudança que permita às meninas "desfrutar a vida".

Muitas de sua idade já lhe expressaram seu apoio na esperança que algum dia também elas possam praticar o esporte que gostam, apesar de não se atreverem a tentar, pelo temor que seus pais e irmãos as impedirão.

"É realmente contraditório para todos nós que a sociedade palestina aceite uma mulher no papel de médica, inclusive para tratar homens, e que nos deixe dirigir, mas não praticar fisiculturismo", comentou Hiyam Abu Rabee, estudante universitária de 21 anos.

Isso porque, na perspectiva mais tradicional de Gaza, a academia não parece ser o melhor lugar para uma menina, em particular quando nos arredores passam vários homens.

Focada em seu sonho de ganhar alguma competição internacional, a mensagem que Dania tenta passar a outras meninas é o de buscar alternativas, como por exemplo, o de fazer algum tipo de exercício ou esporte em casa.

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