No Magrebe, mulheres ajudam a minar seus próprios direitos

Javier Otazu.

Rabat, 4 dez (EFE).- O Magrebe, uma região no noroeste da África que engloba países como Marrocos, Argélia e Tunísia, não está entre as partes do mundo com maiores direitos para a população feminina, mas o surpreendente é que, às vezes, as próprias mulheres se encarregam de minar esses direitos.

Apenas em uma semana ocorreram nos dois países mais ricos e povoados do Magrebe (Argélia e Marrocos), dois incidentes que evidenciam a vulnerabilidade da condição feminina e o papel de algumas mulheres na hora de perpetuar a desigualdade em relação ao homem.

Um desses incidentes, que acabou repercutindo no mundo todo, foi o famoso "tutorial de maquiagem para a mulher maltratada", exibido pela televisão pública marroquina "2M" em 23 de novembro, e que consistiu em uma série de truques de maquiagem para camuflar hematomas e inchaços na rosto das mulheres, após sofrer maus-tratos de um homem.

Em um tom leve, como é habitual nos programas matinais de qualquer emissora de televisão, na atração "Sabahiyat", que mistura receitas de cozinha, conselhos de limpeza e seções de estilo, houve espaço para ensinar a uma mulher com o rosto desfigurado como esconder as marcas dos golpes. (https://www.youtube.com/watch?v=0-zteGJIetE)

Além disso, o tutorial foi exibido dois dias antes do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher, o que o tornou ainda mais paradoxal, mesmo com uma maquiadora mulher, uma diretora mulher, e também com uma mulher no comando da direção da rede de televisão.

O programa acabou ganhando enorme repercussão nas redes sociais, que permitiram que o escândalo atravessasse fronteiras e se tornasse mundial, ocupando espaço em sites, jornais e programas de televisão durante toda a semana seguinte.

Após tudo isso, a emissora fez um pedido de desculpas, reconheceu que a exibição do quadro foi "completamente inadequada e baseada em um erro de avaliação editorial", além de ser totalmente contraditório "à linha editorial da emissora".

Este seria um outro paradoxo, já que a "2M" é a rede "mais progressista" do Marrocos, a que exibe programas mais amenos que a primeira emissora do país e tem uma reputação de moderna e laica.

No Marrocos, a violência machista afeta seis milhões de mulheres, segundo números da ONU, o que equivale a uma em cada três mulheres, com "dimensões preocupantes e graves", de acordo com a ministra da Solidariedade e da Mulher, Bassima Hakaui.

Essa polêmica no Marrocos foi seguida por outra na vizinha Argélia, quando uma colega de Bassima, a ministra da Solidariedade Nacional, da Família e da Condição da Mulher, Mounia Meslem, fez uma sugestão incomum após ser questionada por um jornalista: que as mulheres funcionárias renunciem a seus salários quando estão casadas para ajudar o país a sair da crise.

A Argélia vive uma grave crise causada pela queda nos preços do petróleo e do gás, duas commodities das quais o país é altamente dependente, e os ministros anunciaram cortes de 10% nos salários para ajudar o país.

Ao ser perguntada sobre essa medida pelo entrevistador do site "albilad", a ministra Meslem foi além: "O mínimo que podemos fazer é dar não apenas uma parte, mas a totalidade do salário, sobretudo as mulheres casadas que vivem, graças a Deus, sustentadas por seus maridos".

Na Argélia, a mão-de-obra feminina assalariada era de 17,38% do total em 2014, um percentual que não para de subir desde 1990, de acordo com números do Banco Mundial.

Meslem, que era uma notória advogada antes de chegar a ser ministra, foi criadora da Associação Rachda de proteção dos direitos das mulheres, o que faz com que suas declarações chamem ainda mais a atenção.

Ou seja, não se trata de uma militante islamita, com uma concepção conservadora do papel da mulher na sociedade, como também não o são as jornalistas e as diretoras do canal marroquino "2M": são o contrário, são pessoas mais próximas da ideia de feminismo.

No entanto, elas parecem tornar realidade a premissa de que o machismo também sobrevive graças às atitudes de muitas mulheres.

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