De porta para a Europa, Grécia vira armadilha para refugiados

Óscar Valero.

Atenas, 12 dez (EFE).- O fechamento das fronteiras europeias transformou a Grécia em 2016 em um grande gargalo para a migração, com o acampamento de Idomeni como símbolo de uma Europa nada solidária e mais de 60 mil pessoas retidas à espera de uma remota realocação em outros países da União Europeia (UE).

Instalados em lavouras, expostos à chuva e ao calor, a construção da cerca feita pelas autoridades da Macedônia não abalou os migrantes que, esperançosos por uma iminente abertura da fronteira, resistiam a ir embora.

Era final de fevereiro e a Grécia já tinha registrado 100 mil entradas. A situação começou a extrapolar os limites e o governo não tinha estrutura nem experiência suficientes para tramitar tantos migrantes.

Em Idomeni, onde aconteceram os primeiros protestos, a precariedade e a aglomeração eram visíveis em todas as ilhas do Mar Egeu, que tinham controles marítimos, mas principalmente da Polícia turca para evitar a saída de embarcações. Com todo esse aparato, o número de entradas caiu drasticamente, mas não chegou a ser totalmente extinto.

Além disso, os que chegaram depois desta data têm que permanecer em abrigos. Lá eles ficam à espera que a solicitação de asilo seja aceita ou rejeitada e sejam enviados à Turquia, como diz o acordo entre a União Europeia e o governo em Ancara.

A lentidão na análise dos pedidos - em muitos casos por falta de funcionários especializados -, os problemas - legais em algumas ocasiões - para a repatriação e a falta de vontade dos países da UE para acolher os refugiados fazem com que os centros de recepção superem a capacidade e fiquem superlotados. Os países da UE, que chegaram a um acordo para realocar 66 mil migrantes da Grécia e absorver ordenadamente uma parte daqueles que chegaram ao país, só recolocaram, desde novembro de 2015, 6 mil.

Isto desencadeou as primeiras revoltas na Ilha de Lesbos, no campo de Moria, onde as más condições de vida e a incerteza continuam gerando grandes e pequenos conflitos.

Enquanto as ilhas ficavam cheias, as autoridades gregas deram início a um programa de reorganização dos campos que incluía a construção de novas instalações, muitas vezes utilizando infraestruturas já existentes, e procedeu o despejo de Idomeni em maio, seguido pelo de Pireu. Paralelamente, o governo, no qual o ministro de Migração, Yannis Mouzalas, ganhava cada vez mais importância, implementava programas educativos para as crianças, demonstrando que as autoridades assumiam que aquele situação tinha chegado para ficar.

Nem as visitas do papa Francisco a Lesbos, em abril, e de Ban Ki-moon, em junho, ou as dezenas de declarações políticas aceleraram as realocações.

Com tudo isso, o governo grego tem agora um de seus maiores desafios para o ano que vem. As populações, que já tinha visto suas economias, fundamentalmente turísticas, cair por terra, começam a mostrar insatisfação com os centros de refugiados, às vezes até de maneira violenta.

A população discorda sobre a construção de mais abrigos para descongestionar os já existentes e bloqueiam qualquer iniciativa, ao tempo que o acordo UE-Turquia proíbe a Grécia de transferir migrantes a território continental.

Como todos os anos, a chegada do inverno vai conter as entradas. O mesmo inverno, porém, vai tornar mais difícil a situação dos refugiados que já estão na Grécia e que pensavam em encontrar por lá uma porta para a Europa, mas se deparam com uma verdadeira armadilha.

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