Imperador surpreende Japão com desejo de abdicar

Marta O. Cavriotto.

Tóquio, 13 dez (EFE).- O ano de 2016 foi testemunha de um fato histórico e surpreendente no Japão: Akihito, o único monarca com o título de imperador, disse que estava cansando e indicou seu desejo de abdicar, algo um tanto quanto problemático, já que a lei japonesa não prevê a sucessão em vida.

Em um discurso excepcional, e após 28 anos à frente do milenar Trono do Crisântemo, o imperador do Japão se dirigiu à nação em agosto para explicar as limitações devido à idade avançada e problemas de saúde.

No entanto, o monarca, de 82 anos, evitou se referir de forma direta à sua abdicação ou a quando deixaria o cargo, já que isso poderia ser considerado uma violação das limitadas funções que a Carta Magna japonesa atribui ao imperador.

Akihito, conhecido por sua extrema discrição, expressou então seu desejo de que as funções do imperador como símbolo de Estado pudessem continuar de forma estável e sem nenhuma interrupção.

Além de ser surpreendente o imperador falar abertamente de seus sentimentos, a futura abdicação do monarca representaria uma dor de cabeça para o governo japonês.

Para que Akihito possa renunciar em benefício de seu filho, o príncipe herdeiro Naruhito, de 56 anos, será necessário modificar a estrita legislação que rege a Casa Imperial japonesa desde 1947, que não contempla a sucessão em vida.

Com o imbróglio, o governo japonês formou um comitê de analistas para compilar propostas e tramitar a abdicação do imperador.

A decisão do comitê pode abrir o caminho para uma legislação especial que evitaria a necessidade recorrer a uma emenda constitucional, um processo longo e complexo.

Apesar de apenas a abdicação póstuma estar prevista na lei atual, metade dos 124 imperadores abandonaram o cargo antes de sua morte.

Em todo caso, se acontecer, a abdicação de Akihito seria a primeira na linha sucessória imperial japonesa desde a do imperador Kokaku, em 1817.

Nascido em 23 de dezembro de 1933 e educado por estritos tutores imperiais, Akihito foi enviado às montanhas de Nikko, ao norte de Tóquio, durante a Segunda Guerra Mundial como uma criança refugiada.

Em 1952, quando foi proclamado herdeiro imperial como único filho de seu pai, já sabia que seu papel se limitaria a tarefas de representação.

O 125º descendente da monarquia mais antiga do mundo começou a romper parâmetros, embora sempre de maneira prudente, quando em 1959 se tornou o primeiro herdeiro do trono a se casar com uma plebeia, a atual imperatriz Michiko, a quem conheceu jogando tênis.

Renomado especialista no estudo científico dos peixes gobyes, violoncelista e autor de poemas "wakas", Akihito tem três filhos e quatro netos.

O imperador, de aspecto frágil e elegante, se submeteu a uma cirurgia no coração em 2012, e em 2003 foi operado de um câncer de próstata. O tratamento hormonal que recebeu, então, causou uma osteoporose e, além disso, em 2008 sofreu uma hemorragia estomacal.

Akihito, definido pela Carta Magna japonesa como "símbolo do Estado e da unidade do povo", tem um papel meramente cerimonial. Contudo, apesar das limitações de protocolo, sempre mostrou seu desejo de se conectar com seu povo.

Assim, foi durante todo seu reinado o máximo representante de estabilidade e continuidade para os japoneses, céticos com a política, e seu desejo de abdicar conta com o apoio de mais de 85% da população.

O imperador conta também com o respaldo de pessoas próximas, preocupadas com o envelhecimento da cada vez mais reduzida família imperial japonesa.

Com sua idade avançada e uma saúde cada vez mais fragilizada, Akihito quer deixar o Trono do Crisântemo como reinou durante quase três décadas, com discrição e fora dos holofotes.

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