Tillerson, o executivo pró-Rússia que guiará a política externa de Trump

Lucía Leal.

Washington, 13 dez (EFE).- Rex Tillerson, designado como secretário de Estado nesta terça-feira por Donald Trump, é um executivo cuja experiência em política externa se limita a seus negócios como chefe da companhia petrolífera Exxonmobil e cujos laços com a Rússia indicam uma aproximação com Moscou que pode mudar o panorama geopolítico mundial.

Se receber o sinal verde do Senado, Tillerson será o primeiro titular das Relações Exteriores da história moderna dos Estados Unidos que chega ao cargo sem nenhuma experiência prévia no setor público, algo que não tem precedentes pelo menos no último século.

Sua seleção se encaixa com a tendência de Trump de escolher para seu gabinete multimilionários com bagagem empresarial, mas sem passagem por cargos públicos, embora surpreenda os que esperavam que o presidente eleito complementasse sua própria falta de experiência em política externa com um conhecedor do mundo diplomático.

Tillerson, de 64 anos, convenceu Trump por sua fama de hábil negociador e gerente, além de pelas relações que entabulou com líderes de todo o mundo como presidente da principal petrolífera americana.

A mais notável dessas relações é a que mantém há mais de duas décadas com o presidente russo, Vladimir Putin, que em 2013 lhe condecorou com a "Ordem da Amizade" do país.

"(Tillerson) passou mais tempo interagindo com Vladimir Putin que provavelmente nenhum outro americano, com a exceção de Henry Kissinger (ex-secretário de Estado)", disse alguém que lhe conhece bem, o presidente do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS), John Hamre, ao "The Wall Street Journal".

Trump confirma, portanto, que perseguirá sem rodeios sua vontade de se aproximar de Moscou, ao pôr sua política externa nas mãos de dois conselheiros que compartilham essa visão: Tillerson e seu assessor de segurança nacional, o general reformado Michael Flynn.

Tillerson, que dirige a ExxonMobile desde 2006, assinou em 2011 um acordo com a companhia petrolífera estatal russa, a Rosneft, para explorar conjuntamente valiosos recursos no Ártico.

Mas essa lucrativa aliança ficou congelada pelas sanções impostas pelos EUA quando a Rússia anexou em 2014 a península ucraniana da Crimeia, e Tillerson criticou essas restrições que, caso se torne secretário de Estado, estariam em suas mãos.

Com abundantes cabelos brancos, grossas e escuras sobrancelhas e um forte sotaque texano, Tillerson é um homem com carisma que se manteve fiel durante toda sua carreira à empresa que agora lidera, na qual ingressou pela primeira vez em 1975 como engenheiro civil e da qual planejava retirar-se em 2017, ao completar 65 anos.

Essa empresa desenvolveu sua própria "política externa independente", dedicada a "promover um mundo afim à produção de petróleo e gás natural", segundo Steve Coll, autor do livro sobre a companhia petrolífera "Private Empire: Exxonmobil and American Power".

"Trump está entregando o Departamento de Estado a um homem que trabalhou toda sua vida dirigindo um pseudo Estado paralelo, para o benefício de seus acionistas, estabelecendo relações com líderes estrangeiros que podiam ajustar-se ou não aos interesses do governo dos EUA", escreveu Coll na revista "The New Yorker".

Em 2011, por exemplo, Tillerson contradisse a política oficial dos EUA ao assinar um acordo com a região iraquiana do Curdistão e fez isso sem informar previamente ao Departamento de Estado.

Sob sua direção, a companhia petrolífera sucumbiu também às tensões políticas na Venezuela, um país que deixou depois que o presidente Hugo Chávez nacionalizou o setor petroleiro em 2007 e ao qual Tillerson processou perante um tribunal de arbitragem até que em 2014 obteve uma compensação de US$ 1,6 bilhão.

Consultados pelo jornal "The New York Times", algumas das pessoas que trabalharam com Tillerson lhe descreveram como um líder forte que gosta de dar ordens e ter a última palavra nas decisões, um perfil que poderia não ajustar-se bem ao cargo de secretário de Estado, que sempre está à mercê do presidente.

Considerado o 25º homem mais poderoso do mundo pela revista "Forbes", Tillerson é um defensor do livre-comércio, algo que poderia se chocar com o protecionismo de Trump, e durante as primárias republicanas apoiou um candidato mais moderado, Jeb Bush.

Casado e com quatro filhos, Tillerson também parece ser mais progressista que Trump no que se refere à mudança climática, um problema que reconheceu como causado pela atividade humana, embora sem deixar de defender o consumo de combustíveis fósseis.

Nascido em 1952 em Wichita Falls (Texas), Tillerson é filho de um administrador dos Escoteiros e frequentemente recita lemas dessa organização que ele chegou a presidir entre 2010 e 2012, um período no qual permitiu pela primeira vez que os jovens abertamente homossexuais se unissem ao grupo.

Seu processo de confirmação no Senado promete ser polêmico não só por seus laços com a Rússia, mas pelos US$ 151 milhões que possui em ações da Exxonmobil, às quais provavelmente teria que renunciar se chegar ao cargo para ajustar-se às regras éticas do Departamento de Estado.

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