Dom Paulo Evaristo Arns: o franciscano que enfrentou a ditadura

Carlos Meneses Sánchez.

São Paulo, 14 dez (EFE). - Dom Paulo Evaristo Arns morreu nesta quarta-feira, aos 95 anos, depois de ter dedicado toda uma vida em defesa dos direitos humanos, inclusive denunciando as torturas durante a ditadura militar.

O cardeal, nascido em Forquilhinha, Santa Catarina, era o quinto dos 13 filhos do casal Gabriel Arns e Helena Steiner Arns, que vieram da Alemanha. Com pouco mais de 20 anos, ele entrou para a Ordem Franciscana depois de ter estudado Filosofia em Curitiba (Paraná) e Teologia em Petrópolis (Rio de Janeiro). A ordenação como sacerdote veio em 1945.

Seus anseios por conhecimento o levaram a atravessar o Atlântico e fazer doutorado em Letras na Universidade de Sorbonne, em Paris. Quando voltou ao Brasil, deu aula por mais de uma década em todo o país, até que foi nomeado bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo em 1966. Quatro anos depois, começou uma nova missão como arcebispo de São Paulo.

Ao longo de 71 anos de sacerdócio e 50 de episcopado, chegou a trabalhar também como jornalista e escreveu mais 50 livros.

Durante a ditadura, denunciou as torturas, os desaparecimentos, as prisões arbitrárias, e era favorável ao movimento das "Diretas Já". Em 1970, mesmo ano em que tomou posse como arcebispo, manifestou apoio a religiosos como Dom Hélder Câmara e Dom Waldyr Calheiros, que estavam sendo pressionados pelo regime.

Em 1972, criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo e como presidente regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) liderou a publicação do manifesto "Testemunho de paz", com fortes críticas aos militares e que teve grande repercussão.

De seu púlpito na Catedral de Sé promoveu atos ecumênicos para às vítimas da ditadura, como o estudante Alexandre Vannucchi Leme, assassinado em 1973, e o jornalista Vladimir Herzog, assassinado no DOI-CODI, em São Paulo, dois anos depois. Esse ímpeto reivindicativo o tornou símbolo de uma Igreja progressista, o que não impediu sua ascensão na hierarquia católica e 1973 foi ordenado cardeal.

Seus apelos contra os abusos não se limitaram ao âmbito nacional e dom Paulo denunciou também violações de direitos ocorridas na ditadura da Argentina entre 1976 e 1983.

A intensa atividade social e a repercussão de sua luta contra as ditaduras o transformaram em uma importante figura da Igreja Católica na América Latina, que em 1978 o teve como um de seus cardeais com chances de se eleger papa no conclave que escolheu João Paulo II. Em 1983, foi um dos responsáveis pela criação da Pastoral da Criança, ao lado de sua irmã, a médica e sanitarista Zilda Arns, que morreu no terremoto de 2010 no Haiti, onde desenvolvia trabalhos humanitários.

Em 28 anos de arcebispado, já que em 1998 apresentou sua renúncia por limite de idade, impulsionou a construção de mais de 2 mil comunidades eclesiásticas de base, 1.200 centros comunitários e 43 paróquias. Por seu empenho, dom Paulo recebeu quase 40 títulos de cidadania, o Prêmio Nansen, o maior concedido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), e o Prêmio Niwano da Paz, no Japão, além de vários outros.

Depois de 76 anos de congregação religiosa, o cardeal morreu hoje em São Paulo por problemas pulmonares. O velório e o sepultamento do arcebispo emérito de São Paulo acontecerão na Catedral da Sé.

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