Hollande desiste de tentar reeleição em ano marcado por massacre em Nice

Enrique Rubio.

Paris, 14 dez (EFE).- O massacre de Nice, cometido por um terrorista jihadista que atropelou com um caminhão uma multidão na festa nacional de 14 de julho, abriu novas fendas na sociedade da França, desencantada com a gestão de um presidente, François Hollande, que não tentará a reeleição.

Embora o ano de 2016 não tenha atingido os sangrentos níveis de 2015, voltou a evidenciar que o país é um alvo prioritário do grupo Estado Islâmico.

A Eurocopa, torneio de futebol continental organizado neste ano pela França, parecia o alvo perfeito para que o terrorismo voltasse a atingir o país, por isso que foram adotadas medidas extraordinárias de segurança.

Somente quatro dias depois da final, quando o governo comemorava o bom transcurso do torneio, o tunisiano Mohammed Lahouaiej Bouhlel usou um caminhão frigorífico em Nice para atropelar centenas de pessoas que assistiam aos fogos de artifício da festa nacional.

O massacre deixou 86 mortos e mais de 300 feridos. Bouhlel acabou morto pela polícia.

A princípio, as investigações apontaram para um ato isolado de um alienado, radicalizado poucas semanas antes de cometer o ato terrorista.

No entanto, pouco depois foi descoberto que o homem, que tinha sido descrito por pessoas próximas como muçulmano não praticante e de vida dissoluta, previa cometer um atentado há meses e que inclusive tinha tirado fotos do local do ataque um ano antes.

Bouhlel contou com a cumplicidade de um grande número de pessoas - em dezembro foram detidas mais dez relacionadas supostamente com o caso-, entre elas dois albaneses que supostamente lhe proporcionaram ajuda logística.

A praga do terrorismo organizado ou inspirado pelo Estado Islâmico alcançou também a Igreja cristã, com o assassinato de um octogenário sacerdote em uma paróquia da Normandia (noroeste).

Em 26 de julho, dois homens armados com facas e com falsos artefatos explosivos entraram na igreja de Saint-Étienne du Rouvray, na periferia de Ruan, quando era realizada a missa e se fecharam nela com seis reféns: o padre, dois fiéis e três freiras.

Após degolar o pároco Jacques Hamel e deixar ferido outro idoso, os dois terroristas saíram da igreja gritando "Alahu akbar" (Alá é grande) e morreram após serem atingidos por disparos da polícia.

Em outro ataque, ocorrido em junho em Magnanville, a noroeste de Paris, que foi reivindicado posteriormente pelo Estado Islâmico, um homem assassinou com uma faca um casal de policiais em sua casa e diante de seu filho de três anos.

Esta situação de insegurança tenha piorado a reputação de Hollande como líder da nação, embora não mais que sua polêmica reforma laboral, que levou ao longo de meses centenas de milhares de manifestantes às ruas.

Com um nível de impopularidade sem precedentes, Hollande surpreendeu em dezembro ao anunciar que não concorrerá à reeleição nas eleições presidenciais previstas para abril e maio de 2017. Dessa maneira, se transformou no primeiro presidente em exercício durante a V República a não disputar um segundo mandato.

Sua renúncia abriu ainda mais o leque de candidaturas na esquerda, que já conta com dois candidatos fortes à margem do Partido Socialista: o ex-ministro de Economia Emmanuel Macron, liberal, e o esquerdista Jean-Luc Mélenchon.

Pouco depois do anúncio de Hollande, seu até então primeiro-ministro, Manuel Valls, deixou o governo e se candidatou para as primárias do Partido Socialista, nas quais enfrentará os ex-ministros Arnaud Montebourg, Benoit Hamon e Vincent Peillon, entre outros, para conseguir a candidatura à presidência pela legenda.

Após a saída de Valls, o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, assumiu as rédeas do governo como primeiro-ministro.

Na direita, o também ex-primeiro-ministro François Fillon levou a melhor nas primárias ao vencer Nicolas Sarkozy e o grande favorito, Alain Juppé, com sua mensagem de reformas liberais.

Apesar de tudo, as pesquisas seguem apontando a ultradireitista Marine le Pen, líder da Frente Nacional, como favorita no primeiro turno, que será realizado em 23 de abril, embora não no segundo e definitivo, marcado para 7 de maio.

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