Presidente das Filipinas polemiza com guerra ao tráfico e repúdio aos EUA

Helen Cook.

Manila, 14 dez (EFE).- A personalidade irreverente e imprevisível do novo presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, sua violenta guerra contra o tráfico de drogas e seu repentino repúdio aos Estados Unidos renderam ao político manchetes na imprensa de diversos países em 2016.

Desde o início da campanha eleitoral para presidente, que começou em fevereiro, Duterte mostrou com vários discursos polêmicos que, apesar de ganhar cada vez mais relevância internacional, não estava disposto a mudar a espontaneidade que marcou toda sua corrida política.

Um dos primeiros escândalos repercutidos na mídia foi um discurso no qual ele lamentou, em tom irônico, não ter sido o primeiro a abusar sexualmente da missionária australiana Jacqueline Hamill, violentada e assassinada em 1989 no motim de uma penitenciária em Davao quando ele era prefeito da cidade.

"Por um lado, eu estava furioso porque a estupraram. Mas era tão bonita... O prefeito devia ter sido o primeiro!", disse Duterte em abril durante um comício.

Depois de ganhar as eleições em maio, vieram as reiteradas incitações à violência, nas quais ele pedia a policiais e a civis para que matassem traficantes e usuários para acabar com o consumo de drogas, que segundo ele é um dos maiores problemas das Filipinas.

"Estes filhos da p... estão destruindo nossas crianças. Estou alertando: não vá por esse caminho, mesmo que você seja um policial, porque eu realmente vou te matar", avisou Duterte em discurso feito poucas horas depois de sua nomeação para presidente das Filipinas, em 30 de junho.

"Se você conhece algum viciado, vá em frente e mate você mesmo, porque pedir que seus pais façam isso seria doloroso demais", acrescentou.

Sua batalha contra as drogas, na qual também deu permissão explícita a policiais para atirarem para matar se qualquer suspeito resistisse, deixou cerca de 6 mil mortos, conforme números oficiais. Desse total, mais de 2 mil morreram em operações policiais, e cerca de 4 mil foram assassinadas por grupos armados que decidiram fazer justiça com as próprias mãos.

O elevado número de vítimas fez com que vários dos principais atores da comunidade internacional, como a Organização das Nações Unidas (ONU), a União Europeia (UE) e Estados Unidos, criticassem Duterte abertamente por não respeitar os direitos humanos.

Longe de ignorar as críticas, Duterte disse que a ONU é "inútil" e ameaçou tirar seu país da organização, xingou a UE, lembrando as posturas questionáveis do bloco, como a rejeição aos refugiados da guerra na Síria.

Para o governo americano, as palavras foram ainda mais duras. Duterte atacou o presidente Barack Obama, a quem chamou de "filho da p..." poucas horas antes de uma reunião no Laos em setembro. O encontro não aconteceu.

Duterte também usou o mesmo tom neste ano contra o ex-embaixador dos Estados Unidos em Manila, Philip Goldberg, e até contra o papa Francisco, criticado por criar grandes engarrafamentos em Manila durante sua visita em janeiro de 2015.

Poucas semanas após criticar Obama, Duterte confirmou o evidente distanciamento das Filipinas com relação os Estados Unidos, que colonizaram o país por 48 anos (1898 a 1946) e que desde a independência foi considerado um de seus principais aliados.

"Nesta sala anuncio minha separação dos Estados Unidos, tanto militar quanto economicamente", afirmou Duterte em outubro, em discurso feito em Pequim ao lado do presidente da China, Xi Jingping.

"Me alinhei com sua corrente ideológica e talvez também vá à Rússia para falar com Putin e dizer a ele que somos nós três contra o mundo: China, Filipinas e Rússia", acrescentou.

Além de anunciar a intenção de pôr fim a importantes resoluções militares assinados com os americanos, o presidente filipino assinou vários acordos comerciais com a China e anunciou a possível compra de armamento chinês.

"A China está me pressionando com o assunto das armas, já têm listas. Vou aceitar (...) Não são gratuitas, mas um empréstimo que podemos devolver em 25 anos", explicou ele.

Assim, o país se transformou de uma das nações mais estáveis do Sudeste Asiático no plano econômico e com eleições pacíficas a uma das mais polêmicas e mais criticadas por organizações internacionais.

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