Evo Morales endurece disputa com adversários em busca de nova reeleição

Javier Aliaga.

La Paz, 15 dez (EFE).- Após a derrota sofrida em fevereiro de 2016 na tentativa de mudar a Constituição da Bolívia para permitir um quarto mandato consecutivo, Evo Morales adotou uma postura mais dura contra os adversários políticos e os jornalistas críticos ao governo, persistindo no objetivo da reeleição.

O triunfo do "não" com 51,3% votos contra a reforma constitucional que permitiria uma candidatura de Morales no pleito de 2019 foi um duro golpe pessoal contra o presidente boliviano, levando em consideração que ele estava acostumado a vencer qualquer eleição realizada no país com uma grande vantagem desde 2006.

Da desilusão e do desconcerto, Morales passou imediatamente para a desqualificação do resultado, afirmando que foi resultado de uma guerra suja com a novela sem fim que se transformou a antiga relação que o presidente teve com Gabriela Zapata, presa desde fevereiro após ser acusada de legitimar lucros ilícitos, entre outros crimes.

Se alguém esperava que a derrota no referendo selaria o futuro político de Morales para dar lugar a um sucessor no Movimento ao Socialismo (MAS) ou promoveria uma alternância no poder, o que ocorreu foi o oposto: o presidente decidiu apostar em um "segundo tempo" para insistir no projeto da reeleição.

O governo abriu uma frente contra os políticos que fizeram campanha contra o "não" e outra contra os veículos de imprensa e jornalistas que contaram a história de Zapata e do suposto filho que ela afirma ter tido com Morales, mas que, segundo a Promotoria, nunca nasceu.

A luxuosa vida de Zapata, a denúncia de que usava escritórios do governo para negociações ilegais e o aumento patrimonial que ela obteve trabalhando para a companhia chinesa Camce, que assinou vários contratos com a Bolívia, chamaram a atenção da imprensa. O caso, então, foi usado pela oposição para questionar Morales.

Foi um dos piores momentos de Morales. Uma controvérsia para descobrir se sua ex-namorada ou a Camce se beneficiou da influência do gabinete presidencial, apesar de o parlamento, controlado pelo governo, ter livrado o líder das acusações.

Com uma reação não vista há muito tempo contra a imprensa, o governo acusou vários veículos de formar um "cartel de mentiras" sobre o caso Zapata, o que deteriorou gravemente as condições de trabalho e liberdade dos jornalistas no país, como foi denunciado por vários órgãos internacionais.

Além da retórica hostil, a campanha teve efeitos concretos e também gerou resposta da imprensa, que denunciou que o governo está promovendo uma "asfixia propagandista" que ameaça a "independência editorial" e provoca autocensura.

O endurecimento do governo também tem como alvo a oposição, em particular o empresário Samuel Doria Medina, que enfrenta várias ações judiciais, inclusive sendo acusado de crimes que teriam sido cometidos há 25 anos, quando era ministro de Planejamento.

Além de Doria Medina, estão sendo processados ou já foram condenados o ex-presidente Jorge Quiroga, o governador de Santa Cruz, Ruben Costas, o prefeito de La Paz, Luis Revilla, e o ex-governador Beni Ernesto Suárez.

O ex-presidente Carlos Mesa, que até agora tinha escapado dessa cruzada judicial, foi alertado que o parlamento pode investigar uma destruição de documentos sobre despesas que teria ocorrido em 2004.

Todos os opositores denunciaram que Morales usa a Justiça como um instrumento de vingança política e para tirá-los da cena para as próximas eleições. O governo, por sua vez, diz que apenas está combatendo casos de corrupção.

Desde agosto, Morales, movimentos sindicais e camponeses fiéis ao governo sustentam que o resultado do referendo pode ser mudado com a convocação de uma nova consulta e que o presidente deve estar apto a se candidatar para um novo mandato no período entre 2020 e 2025.

Considerar as opções políticas com três anos de antecipação pode parecer um exagero, mas o objetivo da possível reeleição de Morales e as denúncias de perseguição à oposição estão na pauta diária da Bolívia. A Constituição só permite dois mandatos consecutivos, mas o presidente já tinha obtido uma autorização judicial para concorrer e vencer o terceiro pleito.

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