Britânicos dão as costas à UE e votam pela saída do Reino Unido do bloco

Guillermo Ximenis.

Londres, 16 dez (EFE).- A rejeição à imigração e às consequências da globalização econômica levaram os britânicos a votarem em 2016 a favor da saída do Reino Unido da União Europeia (UE), uma guinada na história do país que gerou um cenário de muitas incertezas.

Em referendo no dia 23 de junho, 51,9% dos eleitores deram as costas tanto ao governo conservador quanto à oposição trabalhista, que defendiam a permanência na UE, e optaram pela ruptura com o bloco.

David Cameron, que convocou a consulta convencido de que o "sim" à UE ganharia com folga, renunciou ao cargo de primeiro-ministro horas depois do resultado da votação e deixou como sucessora Theresa May, até então ministra de Interior.

Antes de abril de 2017, May espera iniciar de forma oficial um complexo diálogo com Bruxelas, no qual enfrentará o dilema de escolher entre o acesso ao mercado único europeu e o fechamento das fronteiras aos cidadãos do bloco, duas opções que para a UE são excludentes.

Milhares de funcionários de todos os ministérios - uma força de trabalho que foi descrita como a maior iniciada no Reino Unido desde a Segunda Guerra Mundial - elaboram contra relógio um plano de desligamento que ninguém tinha começado a elaborar antes do referendo.

O acordo com Bruxelas determinará a dívida acumulada de Londres com a UE, que o Reino Unido poderia ser obrigado a continuar pagando mesmo fora do grupo, assim como o novo papel britânico em mecanismos comuns.

Está em jogo o futuro do Reino Unido na união aduaneira comunitária, na Agência Europeia de Medicamentos, no Instituto Europeu de Patentes, na cooperação fronteiriça, na Europol, na Agência Espacial Europeia, no Céu Único Europeu e nas cotas pesqueiras, entre outras incógnitas.

Para explicar os motivos pelos quais os britânicos decidiram iniciar um processo político que ameaça afundar o país na incerteza durante anos, os especialistas apontam os mesmos argumentos que pautaram o avanço do eurofóbico e anti-imigração do Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP), paralelamente à ascensão de outros movimentos populistas no continente.

"Há uma grande quantidade de cidadãos, especialmente aqueles com pouca qualificação, que já não acredita nas instituições públicas. Não confiam nos políticos, nem nos economistas, nem na imprensa", afirmou à Agência Efe Dennis Novy, professor da Universidade de Warwick.

Em 2014, o UKIP ganhou as eleições ao parlamento Europeu no Reino Unido com 4,3 milhões de votos, frente aos 4 milhões do Partido Trabalhista e 3,7 milhões do Partido Conservador.

A vitória nas urnas de uma legenda com mensagens contrárias à imigração foi um sinal inquestionável, segundo Novy, da reviravolta política que se consolidou no "Brexit", um cenário que guarda semelhanças com o auge da Frente Nacional (FN) na França e a vitória do republicano Donald Trump nos Estado Unidos.

"Existe a crença entre muitas pessoas que sofreram (com a globalização) de que a política está acabada. Esse é um grande problema nos Estados Unidos, mas também em muitos países europeus", afirmou o economista, que atuou como assessor especial da Câmara dos Lordes sobre o acordo de livre-comércio com os EUA (TTIP).

"Outro fator comum em alguns países é o nacionalismo. Isto tem um peso enorme no Reino Unido, sobretudo na Inglaterra, e contribuiu em grande parte", argumentou Novy.

Paul Taggart, autor do livro "O novo populismo e a nova política", concorda que a imigração foi o fator "chave" na vitória do "Brexit", embora especifique que as causas profundas estão enraizadas nos "aspectos particulares da política britânica".

O Partido Conservador esteve dividido sobre seu apoio à UE desde o início dos anos 90, enquanto o Partido Trabalhista nunca se comprometeu com a defesa do bloco comum, um vazio que o UKIP aproveitou para lançar suas palavras de ordem contrárias à integração, que com o passar dos anos calaram no eleitorado, segundo o professor de Universidade de Sussex.

"O UKIP apelou tanto para ala eurocética dos conservadores como aos eleitores trabalhistas que se sentiam que deixados de lado", analisou Taggart.

O voto pelo "Brexit" não só sacudiu o governo de Cameron, mas abriu uma das maiores crises na história do Partido Trabalhista.

Seu líder, o veterano eurocético Jeremy Corbyn, foi obrigado a convocar eleições primárias com a renúncia de grande parte de sua equipe, que o acusou de boicotar a campanha a favor da permanência na UE com sua falta de entusiasmo.

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