Piloto e deputada ucraniana irrita Kiev ao se reunir com líderes rebeldes

Kiev, 17 dez (EFE).- A piloto e deputada ucraniana Nadezhda Savchenko, libertada em maio pela Rússia após passar dois anos na prisão, lançou um desafio político às autoridades de seu país ao se reunir na semana passada em Minsk, a capital de Belarus, com os líderes pró-Rússia do leste da Ucrânia.

Sua decisão de ignorar todos os protocolos para negociar sem autorização do governo de Kiev a libertação de todos os prisioneiros ucranianos nas mãos dos rebeldes lhe renderam duras críticas em seu país, onde muitos deixaram de vê-la como uma heroína para acusá-la de servir aos interesses do Kremlin.

O líder do Partido Radical ucraniano, Oleg Liashko, acusou Savchenko de "traição ao Estado" depois que a piloto declarou, após a divulgação da notícia de sua viagem, que Aleksander Zakharchenko e Igor Plotnitski, chefes das autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, "não são demônios, são pessoas".

"Também não viu como demônios os agentes do FSB (Serviço Federal de Segurança russo) que organizaram o encontro. O que Savchenko está fazendo é traição ao Estado. Por essas ações é preciso privá-la do acesso aos segredos de Estado e cassar seu mandato de deputada", escreveu Liashko no Facebook.

Savchenko, de 35 anos, respondeu a uma emissora de televisão local que "é uma bobagem" dizer que ela é "um projeto do Kremlin" e assegurou que tudo o que faz "é pelo bem do povo ucraniano".

"Nunca traí o povo ucraniano. Resisti na Rússia e também aguentarei todos os golpes na Ucrânia", comentou a piloto.

O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) informou que a polêmica deputada "não combinou" com eles sua viagem e anunciou que a interrogaria neste sentido.

Já em agosto, a piloto acusou as autoridades ucranianas de não fazerem nada para libertar os prisioneiros de guerra e recomendou que fosse iniciado um diálogo direto com Zakharchenko e Plotnitski.

Na época, Savchenko também se ofereceu para que fosse ela mesma a interlocutora com os rebeldes e, finalmente, na última quarta-feira viajou à capital de Belarus para conversar com os líderes sublevados a troca de prisioneiros segundo a fórmula de "todos por todos", à qual Kiev se opõe por entender que deverá libertar criminosos.

Embora a posição de Savchenko neste assunto fosse bem conhecida, a notícia sobre sua viagem a Minsk a colocou no olho do furacão, até o ponto em que a líder do partido Batkivshina, pelo qual a militar ocupa uma cadeira no parlamento ucraniano, a ex-primeira ministra Yulia Tymoshenko, propôs na segunda-feira sua expulsão da legenda.

"Savchenko pode planejar sua vida e sua atividade política como quiser. Já não tem nada a ver com o Batkivshina. Nós não apoiamos nenhum tipo de negociação com os terroristas", disse Tymoshenko, que lembrou que a piloto já havia anunciado sua intenção de criar e liderar seu próprio projeto político no futuro.

Logo após aterrissar em Kiev depois de receber um indulto do presidente russo Vladimir Putin em maio, a mulher que combateu durante seis meses no Iraque, nas fileiras dos paraquedistas ucranianos, já tinha deixado claro que incomodaria todo o mundo para defender suas posturas.

"Eles tentam dizer que tipo de política eu devo ser e como tenho que falar", descreveu a militar pouco depois de dar seus primeiros passos na política ucraniana, quando caminhou descalça pelo plenário e chamou de "vagabundos" e "mentirosos" seus companheiros.

Savchenko fala com agressividade e muitas vezes aos gritos, e não economiza na hora de insultar e de fazer uso de uma linguagem vulgar, como fez após comparecer a uma de suas primeiras sessões no plenário do parlamento ucraniano, quando afirmou diante das câmeras que os deputados dizem "mentiras todos os dias ao povo".

A piloto foi condenada na Rússia a 22 anos de prisão após ser declarada culpada do assassinato de dois jornalistas no leste da Ucrânia.

Segundo a decisão da Justiça russa, em 17 de junho de 2014 Savchenko proporcionou às forças ucranianas as coordenadas de um posto de controle das milícias pró-Rússia na região de Lugansk, onde estavam dois repórteres de uma emissora russa que acabaram morrendo com a detonação de bombas.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos